Orçamento participativo e poderes republicanos
Avançar na democracia é difícil, há muitas artimanhas oficiais. Vejam o caso: Em 23/12/2005 alguns cidadãos impetraram Ação Popular contra a Prefeitura e Câmara de Vereadores de Macau para ver cumprida a Lei 10257/2001 [Estatuto das Cidades] – gestão orçamentária participativa – na intenção que os macauenses participassem da elaboração, implantação e fiscalização do Plexo Orçamentário, um orçamento milionário, com receita que beirou os R$80 milhões em 2009, bem maior que vários municípios brasileiros, que mesmo com dotação menor dão melhor qualidade de vida aos seus munícipes. Na Ação Popular, pediram “…para determinar aos réus, a elaboração e aprovação no prazo máximo de 30 dias, de projeto de lei orçamentária de acordo com as normas em vigor”. Não existia a lei municipal. Ela foi criada – Lei 936/2006 – em 26/05/2006, em razão da Ação. Pareceu-me de afogadilho, com erro grosseiro. No artigo 5º fixou o prazo de 60 dias para a regulamentação. Do nosso conhecimento até agora, janeiro de 2012, não houve a setorização da cidade e nem a regulamentação e sem isso não há como o cidadão participar democraticamente. Na opinião de juristas é uma lei desprovida de eficácia. A Ação, de rito sumaríssimo para até 90 dias, foi julgada em 04/12/2010, ou seja, mais de 1.800 dias e declarada extinta sem resolução do mérito. Nesse período foi impetrado Mandado de Segurança [05/02/2009] para anular os efeitos do projeto de lei do orçamento de 2008 e em 04/03/2009, Mandado de Injunção, para que o Executivo e o Legislativo de Macau suprissem a omissão legislativa, editando lei municipal que viabilizasse a participação dos cidadãos no orçamento municipal. Pois bem, tanto o Ministério Público como a Justiça do Rio Grande do Norte interpretaram que a lei municipal 936/2006 atendia plenamente o pedido dos autores. Na sequência foi pedido pelo Ministério Público a extinção do processo, acatado pela justiça e extinto nos termos do art. 267, VI do Código do Processo Civil. Neste 24 de janeiro é o Dia da Constituição. A atual, promulgada em 5/10/1988 é conhecida como a Constituição Cidadã.
Depois de décadas de ditadura sem que o cidadão brasileiro pudesse participar, ela nos trouxe alento. Para Miguel Littin, cineasta chileno que foi diretor da Chile Films no governo socialista de Salvador Allende, assassinado pela burguesia num golpe militarista em 1973, o mais profundo ideal de democracia é o povo se representando a si mesmo. O Orçamento Participativo acena com essa possibilidade. E o que se espera dos poderes republicanos é que também avance nesse sentido. De Claudio Guerra para o baú de Macau.
Memórias do Escotismo 7 – Centro Social Pio XI
Do livro 25 anos depois, de Padre Penha, editado em 1983
Os escoteiros estavam em tudo. O Centro Social Pio XI centralizava todos os trabalhos da comunidade. Ali havia o bureau dos encarregados de saúde, os especialistas em questões trabalhistas e sindical, como Kidinho que estudava e encaminhava as questões trabalhistas para o advogado. Pois era ao Centro que os trabalhadores se dirigiam quando se viam em dificuldades. Foi ali onde foi preparado o primeiro líder fundador dos Sindicatos Rurais do Rio Grande do Norte – José Rodrigues. Ali Carlinhos, hoje gerente do Banco do Nordeste em Recife, Juninho, hoje alto funcionário do Banespa, Arimatéia, do Banco do Brasil, Ivanaldo, Gerente do Bandern, Masinho, engenheiro e muitos outros, fizeram suas primeiras experiências financeiras.
Res pública ou magna latrocínia
“Todos os tribunais têm. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte tem, o Tribunal Regional Eleitoral tem, o Superior Tribunal de Justiça tem, o Supremo tem, porque vivemos numa vida política. Quem manda no Brasil são os políticos”. Do Desembargador Corregedor do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, Claudio Santos, respondendo aos repórteres Allan Darlyson e Edílson Braga [entrevista para O Poti de 15/01/2012] sobre cargos comissionados nos tribunais, indicados por políticos. Na continuação da entrevista, Claudio Santos nega que exista acordo para as nomeações. Tem razão. Para provar, prova. Elas existem? Você e mais as torcidas do ABC e do América sabe da existência de acordos para as nomeações dos cargos comissionados, mas não pode provar. Cadê as provas? Nos pedem mal educadamente. Então o que o desembargador corregedor afirma é que os que mandam no Estado são deputados, senadores, governador, prefeitos e até vereadores, todos com o seu naco, todos com direito de apontar um afilhado para um cargo comissionado no judiciário, em detrimento daqueles cidadãos que estudam e se preparam para concursos públicos. São eles, estes políticos do estado patrimonialista que enterram a democracia, são eles os responsáveis pelo mal estar da vida no Rio Grande do Norte: cidadãos humilhados nos “baculejos” da polícia nos ônibus; sofrimento das pessoas nos prontos-socorros e hospitais; falta de condições dignas para alunos, funcionários e professores; colapso das Centrais do Cidadão. Se um poder interfere no outro põe em risco a democracia. Executivo, Legislativo e Judiciário devem ser independentes. Na supressão da Res pública de Cícero, surge a magna latrocínia de Santo Agostinho.
De Claudio Guerra para o baú de Macau
Do poeta macauense Horácio Paiva, Fim de Ano
Fim de Ano
convém a um velho jovem
celebrar
o fim e o começo
convém
preparar o banquete
(e sobretudo o vinho)
do último
e do primeiro instante
convém
celebrar com alegria
a partida
e a chegada
a antiga
e a nova aliança
e no ocaso celebrar
o triunfo da vida
afinal
o velho foi necessário
ao advento do novo
(Horácio Paiva)
Breve informação sobre o João Redondo
Aconteceu no Brasil, aconteceu em Macau…
A publicação é da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e nos lembra dos fatos ocorridos há não muitos anos. É preciso relembrar, sempre. É preciso saber que muitos macauenses foram vítimas da ditadura. É preciso saber que a violência a que foram submetidos não afetaram só eles, mas seus familiares, seus amigos, seus vizinhos. De Claudio Guerra para o baú de Macau.
Nos sessenta: uma história no recreio do Duque

Foto de autor não identificado, década 60, Professora Anaíde Dantas com alunos no Duque de Caxias, arquivo: Professora Anaíde Dantas
Vontade tinha e ainda mais com todo aquele charme da música do Roberto inaugurando o rock and roll no Brasil e tocando toda hora no rádio. Splish Splash, era assim mesmo, as onomatopeias em inglês. Vontade tinha, muito. Coragem, um pouco, mas foi mesmo estimulado pelos amigos que incentivavam: – Não tem coragem para tanto! Foi o olhar cúmplice da menina que lhe deu coragem e então no recreio Splish Splash, foi lá e deu um beijo na face da menina que ruborizou. Ela olhou assustada para as amigas e fez biquinho de choro. Por dentro, felicidade imensa. As amigas recriminaram. Na verdade era inveja grande. Ele afastou-se calmamente olhando os amigos com ares de artista de Róliudi. Foi momento de glória não fosse as amigas correrem para avisar Nenezinho. Veio Nenezinho, calmo, sorrindo às escondidas, a camisa de manga comprida ensacada, calça com vincos irretocáveis, sapatos, meias, elegante na simplicidade e pegou o menino pelo braço. O grupão inteiro em silêncio, atras dele em comitiva, comentando baixinho. No rabo da fila, ele já teria beijado todas as meninas do Duque. Faturou com o episódio. As meninas com interesse e os meninos com inveja. – Dilurdes, olha aqui esse Donruan! – Que foi agora Nenezinho? – Beijou uma menina agora no recreio… Dona Lourdes, a diretora olhou o menino, verificou se tinha piolhos, vistoriou orelhas, roupas, o colarinho. Tudo muito limpo. Higiene impecável. Pensou longamente e depois decretou: – Vai voltar para o catecismo. Vai para a novena da Marechal. Vai confessar seus pecados e comungar no domingo. A suspensão é de três dias! Menos mal, ele comemorou. Beijaria outras depois do catecismo, da novena, da confissão, da comunhão e da suspensão. Agora, tinha que manter a fama.
Das recordações dos meus amigos macauenses.
De Claudio Guerra para o baú de Macau.









