Das antigas salinas, dos calões e balaios

1

Das salinas, das antigas salinas, dos calões e balaios

Foto de autor não identificado, 1940/1950, balaios e calões. Trabalhadores carrenga as barcaça. Arquivo: desconhecido.

Das recordações do macauense Getúlio Teixeira

Getúlio chama a época das antigas salinas de romântica. Os trabalhadores vinham principalmente da zona rural de Macau, Pendências, Afonso Bezerra, Alto do Rodrigues, e também de mais longe. Chegavam nos lombos de burros e cavalos, de misto, de jipe, caminhão, trem e até a pé, mas chegavam. No raiar do dia começavam a labuta que ia até o sol mandar parar. Depois só à tardinha com o sol entrando pela Serra do Mel, recomeçavam. Trabalho penoso, cruel. A noite já não era mais barreira natural para o trabalho: piracas e grandes lamparinas – de lata de querosene ou óleo com pavios de algodão crú ajudavam a superar a escuridão e o trabalho prosseguia frenético. O efeito da luz das piracas na branquidão das pirâmides de sal era belíssimo, romântico.

Foto autor não identificado, 1940/1950, pequenas pirâmides e trabalhadores com balaios e calões levando o sal para o aterro, a grande pirâmide, arq. Getulio Teixeira

Não para aqueles trabalhadores que já estavam acostumados com tudo aquilo e só tinham pensamento em juntar o sal no ganho por produção. Vestidos com tecidos de sacos de algodão e usando sandálias artesanais, solado da borracha de pneus, presos aos pés por tiras de câmara de ar e chamados de alpercatas, alpargatas, alpragatas na voz do povo. Detalhe, na cabeça um chapéu que identificava a origem: chapéu de palha, os oriundos da agricultura e de couro os lidadores de gado. Enfim, trabalhadores, no sal, no sol, na terra. Na hora de comer e do descanso, restava o rancho. Grandes barracas de pau e palha com redes coloridas entrançadas, fincadas naquele mar de sal. O Sindicato, no quadro do Cruzeiro também os acolhiam. Preparar o rango, a comida. Em pequenos grupos de quatro ou cinco pessoas, contratavam o cozinheiro. A comida de feijão, carne, tripa, toucinho e bucho era cozida nas latas de vinte litros, de óleo e querosene. O feijão era de todos, a mistura não. Então, cada um tinha sua marca, seu ferro na mistura, que era colocada envolta por uma palha de carnaúba.

Foto E. Vale, 1937, trabalhadores furando o sal, arquivo: Francisco Gama

No domingo não se trabalha. Os casados que moravam perto iam levar a feira da família, dar um cheiro nas crianças, beijar a mulher e voltava na segunda-feira feliz, sorridente, ou triste e macambúzio. O solteiros e os casados que moravam distantes não iam para suas casas e ficavam ali no Mata-Sete, nas Quatro bocas, nos jogos, nos cabarés, nos forrós, nos pastoris.

Primeiro juntar o sal nas pirâmidezinhas para escorrer a água. Entre elas, a circulação era sobre tábuas. Os balaios eram artesanais, de cipó com um pau atravessado, o calão, carregados no ombros por dois homens. Quanto maior o calo no ombro, mais trabalhador era, diziam. O sal escorrido, seco nas pirâmidezinhas, ia agora para o aterro, a grande pirâmide. Daí para o embarque nas barcaças. Das barcaças para o Lamarão, nos navios. Daí é outra história que o Getúlio vai nos contar.

Da equipe do baú de Macau.

1

  1. My brother recommended I might like this blog. He was totally right. This post actually made my day. You cann’t imagine just how much time I had spent for this info! Thanks!
    louis vuitton outlet http://louisvuittonoutlets2013.overblog.com

Deixe uma resposta