A omissão que nos bestializa. texto do Professor Nazareno Félix

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A omissão que nos bestializa

Foto N. Félix, novembro 2011, Homo Sapiens em Macau-RN. Moradia sob um pé de catingueira nas terras de petróleo e gás; arquivo: o baú de Macau

“Creio que é melhor dizer a verdade do que mentir, saber do que ignorar, ser livre do que depender.” Henry Louis Mencken

Macau, segunda-feira, 7 de novembro de 2011. A Kombi Branca convida a população para o Seminário de lançamento do Plano Local de Habitação de Interesse Social de Macau-RN. Ricardo, 14 anos, certamente deve estar brincando nas ruas da Cohab. À tarde ele estuda na Escola Municipal Maura de Medeiros Bezerra.

Macau-RN, terça-feira, 8 de novembro. Auditório do Teatro Porto de Ama. Magaly Marcelino, vereadora eleita, ex-secretária de Educação, mãe de família, cristã, presidente do Conselho Municipal da Assistência Social, e atual secretária do Trabalho, Habitação e Desenvolvimento e Ação Social de Macau-RN, apresenta para uma pequena parcela da comunidade o Plano Local de Habitação de Interesse Social/PLHIS. Em tempo: a Kombi Branca esqueceu de dizer que o PLHIS é parte das ações do PAC do governo federal e é gerido pelo Ministério das Cidades. Imperioso o registro: na assistência, nenhum vereador ou vereadora; nenhum secretário do Executivo municipal…  Ricardo deve estar nas ruas da Cohab brincando com os colegas…Ou nas terras de Deus. Ele certamente já passou na escola onde estuda. O assessor de comunicação da prefeitura diz que o PLHIS tem como objetivo traçar as diretrizes, metas, prioridades, ações e sugestões na busca de solução dos problemas habitacionais de Macau e reconhece que muitos macauenses não tem uma moradia digna em pleno século XXI. Embora reconheça que a cidade sofre com problemas de infra-estrutura, o assessor de comunicação da prefeitura certamente não sabe o quanto este problema afeta vergonhosamente a vida de Ricardo…  Ricardo, 14 anos, pai alcoólatra, órfão de mãe, retrata cruel e vergonhosamente nossa desumanidade. Ele é o tapa na cara da nossa tão bem disfarçada hipocrisia, e nos envergonha, e nos dá uma lição incomensurável da humanidade e da fraternidade que nos falta. Ele divide com o pai uma cama de solteiro debaixo de uma esquálida árvore num lugar ironicamente chamado de Terra de Deus… Em Macau-RN, em pleno século XXI… Ele não quer abandonar o seu pai, enquanto não percebe que estamos todos abandonando a ele. A política dos gestores macauenses projeta um futuro brilhante para Macau e m 2020, e promete inaugurar no próximo dia 18 o CAPS AD – Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Droga. Ricardo e o seu pai vivem agora… O lugarejo que atende pelo nome de Terra de Deus está localizado ao lado do conjunto habitacional da Cohab. Entre as tais terras e a Cohab, foram construídas algumas dezenas de casas, dentro de uma parceria entre o governo federal e o município. Algumas casas estão fechadas; outras já sofreram reformas; outras talvez já tenham sido vendidas… Ricardo e seu pai foram despejados da casa onde moravam. A doença do pai impede que ele pudesse trabalhar para pagar o aluguel…  Enquanto isso, a direção da escola onde Ricardo estuda, conhecendo o problema, fez chegar à Secretaria de Assistência Social de Macau um relatório sobre a vergonhosa situação. Era setembro…  A legislação mais avançada do ocidente define a maneira como a sociedade brasileira deve cuidar das suas crianças, adolescentes e jovens, principalmente os que apresentam maiores situações de risco e vulnerabilidade, como o nosso Ricardo. Esta mesma legislação fez surgir o Conselho Tutelar, responsável por zelar pelo direito inscrito na Constituição Federal… O Conselho Tutelar de Macau é algo que, se não podemos chamar de entidade surreal, pode ser visto como uma instituição medrosa, temente do cumprimento das suas obrigações legais em virtude de interesses diversos que o torna, diante dos fatos, uma espécie de apêndice da atual administração do município…  Feito milhares que andam espalhadas por este imenso país, desgarradas, sem direito ao sonho que todas elas naturalmente tem, Ricardo ainda é uma criança. Para a nossa vergonha, se sente maravilhada diante de uma sobre coxa de frango na escola onde estuda, quando tem merenda. Nos assombra, nos embrutece, nos torna bestas humanas… Sem um presente digno, e sem um futuro – este, garantido apenas na propaganda oficial do município -, Ricardo é uma responsabilidade nossa! E ele diz que não podemos esperar mais, sob pena de perdermos o que ainda resta de humano em cada um de nós…  Manoel Nazareno Félix da Silva – Professor, Vice-presidente do Conselho Municipal de Educação de Macau-RN.