A Ilha de Santana vista por Bevenuto Paiva

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ILHA DE SANTANA – I

Foto autor não identificado, 2009, Ilha de Santana, arquivo: desconhecido

Bevenuto Paiva [*]

Pelo retrovisor do tempo, pouca coisa vejo dos antigos passageiros dos finais dos anos quarenta, quando ainda existia pelo menos treze moradias e em sua maioria todas de taipa. Dos antigos passageiros, restam apenas treze, uns mudaram do lugar e outros foram para o plano celestial. Desses moradores três eram estivadores, os demais viviam diretamente do trabalho nas salinas, por ocasião da extração do sal. As duas salinas mais próximas se transformavam num verdadeiro formigueiro de tanta gente que vinham dos povoados ao redor de Macau à procura de trabalho. A salina Trapiche era mais próxima do povoado e o feitor era Seu Maneco Pereira. A salina Piratininga, o feitor era João Leandro, genro de Seu Maneco. Morava na ilha e tinha um curral de gado, além de burros e cavalos. Existia ainda a salina de Severo & Irmãos que ficava na margem do rio em frente a Alagamar. Esses trabalhadores que vinham das redondezas próximas a Macau, sempre chegavam no domingo, pois os trabalhos começavam na segunda-feira a partir das cinco horas da manhã. Trabalhavam até a hora do almoço, reiniciando após as treze horas. Nos dois primeiros dias o trabalho consistia apenas em cavar, arrumar em pilhas pequenas e lavar. O serviço ia até escurecer. Já a partir do terceiro dia, começavam a carregar para o aterro, o que era mais penoso. Ao término da safra do sal estavam todos desempregados. Para quem trabalhou bem e conseguiu economizar foi bom, mas quem não economizou nada, agora só no próximo ano. Aquele morador da ilha que conseguisse com o feitor algum serviço na manutenção da salina estava arrumado, aos outros só restava a pescaria que dava apenas para subsistência. Se tivesse um terreno para plantar ficava esperando um bom inverno. Podemos ver que era uma calamidade e esse ritual era repetido todo ano. Existia na ilha uma pequena mata de capoeira, que servia apenas para criação de ovelhas e retirada de lenha para cozinhar, por ser pequena e rala não tinha nada para se caçar. Dos antigos passageiros ainda alcanço pelo retrovisor do tempo, morando na ilha: o casal Jose Luis e Clara, José Ribamar, filho de João Leandro, o feitor da salina; Titico e Raimundo Malaquias; os outros moram em Natal: Pedro e Dedé, filhos de Mozart Albuquerque; João Batista Alves, filho do feitor Miguel Alves; Esmeraldo, filho do cambista de jogo, Palinha; Quinquim, Manoel Bevenuto, Ana Maria, juntamente comigo, todos irmãos, ainda continuamos na estrada.

Foto autor não identificado, 2009, Ponte da Ilha de Santana, arquivo desconhecido

Os outros passageiros que não foram alcançados, que não resistiram a viagem, mas permanecem registrados na memória são: Miguel Alves, feitor de salina, e a esposa; João Caboclo, a esposa e duas filhas; Romana, o filho José e a filha Jovelina; Palinha, o cambista do jogo de bicho e esposa; Pedro Luis e esposa; Dona Luzia, avó de Pedro e Dedé; João Paulino e esposa; Pedro Matias (Seu Lira, meu cunhado) e sua esposa Luiza Paiva, Seu Malaquias e esposa, os filhos Luis, Nonato, Maria, Lourenço e esposa, todos nós éramos passageiros naquele final dos anos quarenta. Faz pena que nem todos puderam resistir para ver as transformações que apenas começaram. A ilha era passagem obrigatória de todas as pessoas que se dirigiam a pé para Macau, vindos da ilha São Francisco, Guaxinim, Logradouro, Porto do Carão e outros lugarejos das adjacências. A estrada passava em frente da nossa casa. Graças a Deus que o tempo que passamos na ilha nunca morreu ninguém, era uma gente sadia e forte e as poucas doenças eram curadas com chá e rezas. Nunca apareceu médico para visita e nem existia Posto de Saúde. Tudo o que precisávamos para nossa subsistência tinha que ser adquirido em Macau. Lá em casa, como eu ia todo dia para as aulas no Duque de Caxias, então o nosso sofrimento era menor. O maior incomodo era a travessia do rio onde a navegação dependência do vento e da maré. Podíamos ver o sofrimento daqueles, desprezados pelos poderes públicos, sem o mínimo de assistência, sem água, sem luz, sem assistência médica, sem o menor recurso para sobreviver, só os milagres divinos para suportar tanto desprezo. Os tempos mudaram, és hoje a ilha do futuro onde todos te buscam, o tempo é voraz e teu passado já foi esquecido, mas para a história tudo está registrado. A trajetória desses passageiros do tempo não pode passar despercebida por essa geração que está desfrutando de uma vida melhor, a melhoria virá pelo esforço e pertinência de cada um; e que num momento de reflexão e discernimento que pelo menos lembrem-se de perpetuar o nome de algum ou que tivesse uma rua com o nome de “Os Desbravadores”, uma homenagem coletiva, a todos que ajudaram a manter sobrevivência da Ilha de Santana.

[*] Pedro Bevenuto de Paiva, é macauense, morou na Ilha de Santana e é colaborador do baú de Macau. Escreveu em 15/11/2011

 

 

 

 

 

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