É o verão…[*]

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Vicente Serejo [**]

Quando setembro chegava e o sol descambava mais lentamente pros lados do mar, e um vento mais generoso soprava vindo da boca da barra, meu pai avisava: é o Leste!

Foto autor não identificado, decada 20, rua São José, arquivo: Fernando A M Cavalcante

Ele conhecia como ninguém aquele vento que abrandava o calor dos dias e das noites e varria o chão das ruas poeirentas acordando as papoulas. Tinha cheiro de maresia, como se banhado no azinhavre de águas antigas enferrujadas pelo tempo. Vinha farto, abraçando os mangues e as salinas, cerzindo de frescor a paisagem velha do lugar.

O velho Severino nasceu e viveu ali, na beira do rio, perto do mar, naquele casarão acocorado na ponta da Rua São José e que pros lados do centro topava lá na Pedra do Mercado, onde ficavam a mercearia e a padaria do seu pai, seu Vicente, meu avô, e de quem herdei o nome e a gargalhada. Era seu caminho antigo, de quanto foi chão batido até chegarem as pedras do calçamento. Na monotonia dos dias que nasciam e morriam nas trindades dos sinos da matriz acordando um rio calmo e dorminhoco.

E por isso o Leste ficou pregado no rosto do menino para nunca mais ir embora. Hoje, quando vem o verão e o sol cai dos morros no chão da sala, sinto as lestadas que encantavam o poeta Gilberto Avelino que sabia guardá-las nos poemas. Um dia, cruzei com ele na galeria do Edifício Rio Branco, do lado da Princesa Isabel. Era verão. Um sol luminoso acendia a vida e o vento assanhava as calçadas. E o poeta, sesmeiro, como eu, da Rua da Frente, avisou, transbordando de alegria: É o Leste, seu Serejo!

Foto E Vale, decada 50/60, Salina CCN, no istmo, arquivo: Francisco Gama

Por esses tempos cheios de luz os dias nascem mais cedo com o cheiro das frutas de fim de ano. Da manga espada, dos cajus sumarentos, as goiabas vermelhas, do abacaxi pérola, dos pequenos melões que adoçam na colheita tardia. Os inhames alvos e enxutos, os umbus intumescidos e aveludados de tão suculentos. E a cajarana, Senhor Redator, que só perde para o cajá verdadeiro quando vem lá das terras gordas do Assú, do beiço do rio, com o perfume que acorda a infância com seus cheiros tão guardados.

O verde daqueles mundos era o mar. Tinha as papoulas com suas flores amarelas, tinha cravos e resedás nos cacos dos pequenos e líricos jardins domésticos e as sombras generosas das tamarineiras nos quintais, mas o verde era do mar. O mato ralo e seco enchia de figuras espectrais os caminhos de Natal até as salinas de Macauzinho, no pé dos cataventos. Mas ficava ali, encabulado com os mangues verdes e exuberantes que faziam a moldura das coroas de lama próximas da velha embocadura do rio manso.

Agora, não, Senhor Redator. Agora o tempo ficou estranho e o chão sem seus velhos caminhos. Sem as circunavegações cósmicas do rio e do mar. Das luas e das estações. E se eram tão íntimos, parte da vida e do lugar, hoje são apenas imagens coloridas de cartões postais. O verão virou um primo nobre, prisioneiro da voz fanhosa dos guias vendendo a nós todos como os primitivos de um território amigo onde o progresso passou e não pediu parada. Que venha o Leste na fresca da tarde. Abrandando o calor.

[*] Texto originalmente publicado no Jornal de Hoje de 18/11/2011, Caderno Cidade, coluna Cena Urbana, do jornalista Vicente Serejo – serejo@terra.com.br

[**] Vicente Serejo é macauense, escritor e jornalista. Autor de Cartas da Redinha, entre outras obras.