A Ilha de Manoel Gonçalves, por José Saddock

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A ILHA DE MANOEL GONÇALVES – Ficção.

Foto Getulio Moura, 2010, Ilha Paraíso antiga Barra da Ilha, arquivo: Getulio Moura

A mulher segurava a mão do menino e seguiam rua abaixo num adeus. Quanto ao modo como o menino se queixava, era ele muito natural, essa condição parecia-lhe injusta e não estava pronto a submeter-se a ela, não suportaria desgarra-se de seu pai por tanto tempo, embora fosse apenas por alguns dias. Porém, não havia outro jeito: a mulher continuava a levá-lo, e ele, resistindo, contorcia-se e inclinava-se qual menino dengoso. Enquanto caminhavam, podiam observar que a rua longa e descalça, deixava escapar um manifesto contraste entre o barro vermelho do chão e as fachadas desbotadas dos velhos armazéns em ruínas. Sua mão pequenina ia tocando de leve as paredes que pareciam uma pele chagada de cal e caliça, fazendo desmoronar aqui e ali, pequenos filetes de reboco, feito papel de areia.

Exposto às fermentações do tempo e do salitre, aquele mundo vivia desabando, perdendo as suas cores, tornando-se uma fotografia antiga. Ali, muitas vezes, os sentidos pairavam diante de uma visão em que todas aquelas imagens se confundiam, como se fosse uma fonte cristalizada pela constância do tempo. Sitiada de águas, a cidade despontava como um quadro antigo, um tesouro perdido. Pelo menos era essa a visão de quem chegava do mar: a primeira vista despontavam antigos casarões, a torre da igreja e uma longa rua que margeava o rio até o horizonte, dando a tudo um ar de nostalgia e relevo.

Finalmente, avistaram o cais e algumas embarcações que atracavam; e, sem maiores sobressaltos, a mulher impingiu a caminhada acenando de longe para os tripulantes, ainda sob os protestos do menino.

Foto autor não identificado, 2006, gamboas, arquivo: desconhecido

Até a foz a viagem era calma e agradável, não lhes infringia maiores cuidados; pelo contrário, a natureza descortinava um cenário de raríssima beleza: de um lado, o manguezal, as garças brancas voando sob um céu azul; do outro, a cidade com seus velhos casarões, o cais e a saudade. Contudo, depois da barra, o mar revolto deixava nas vagas a sua fúria e não só isso, açoitava o costado da embarcação, fazendo-a balançar para um lado e outro, perigosamente. Ali, em que tudo a um só tempo lhes ocorria, a mulher abraçava o seu filho e por um instante ouvia o seu coração bater agitado…

Pelas cinco horas apareceram no horizonte algumas dunas, ainda muito distante, que pareciam uma muralha de lençóis brancos; era a Ilha de Manoel Gonçalves, uma pequena concha na aridez dos montes – As minhas mãos tremiam como se quisessem dominar o tempo, mas o pincel permanecia imóvel. Eu, um humilde poeta, conseguiria pintar o mundo? Na verdade, interessar-me-ia muito poder reproduzir tais acontecimentos, mas imaginava ser impraticável porque, ainda que conseguisse lembrar-me de todos os fatos, seria impossível retratá-los numa única tela – Houve um breve silêncio, durante o qual meus olhos se voltaram para o passado, como se a vida fosse apenas lembranças, mas as cores voltaram à minha mente e a arte refloresceu do nada; calma, sentou-se no meu colo e abraçou-me. – Estranhamente, tornou-se distinto um ruído, um esvoaçar de asas, uma garça pousara insolente numa árvore defronte da janela. Fiquei observando aquela ave e os seus suaves movimentos. Neste canto afastado de tudo, rodeado de mangues, pássaros e luz, isolado do mundo por mares e rios, debalde se procuraria um tesouro, embora ele estivesse ali: A Natureza.

Foto autor não identificado, decada 50, rua Augusto Severo, arq. Leão Neto

Abro o Diário e passo a escrever um poema:

Confundi-me com o mar.

Não havia cais

nem horizonte,

apenas o vento

e a leve impressão

de que navegava em mim mesmo.

A noite chegava silenciosamente por sobre as dunas, por sobre o mundo, e a garça, banhada de tarde, arribava para longe dali.

Na manhã que se sucedeu àquele dia memorável, chegaram a ilha. À direita, as ruínas do Forte Manoel Gonçalves, deixavam na areia os embates outrora travados contra corsários do “Antigo Mundo”; à esquerda, entre a rua circular e a massa de ranchos de pesca, delineava-se a torre da capela, pequenas casas de taipa, um velho armazém e vários tresmalhos, cujos panos se estendiam à beira mar. Tudo o que se via ali, e todas as cores que estranhamente se harmonizavam, parecia ter-se reunido numa conspiração.

Em terra firme, o menino mantinha-se silencioso, contemplando a ilha com um olhar de surpresa e encantamento. A mãe parecia satisfeita por ver o filho tão feliz e maravilhado. Durante toda a manhã fizeram compras de apetrechos de pesca, mantimentos, redes e utensílios. À tarde, já com tudo devidamente acomodado para o regresso no dia seguinte, foram passear nas imensas dunas que o tempo e o vento haviam esculpido. O menino aprendeu com os demais, a escorregar morro abaixo sentado numa pequena tábua de madeira, era a coisa mais divertida do mundo. Brincavam, sem saber, no entanto, que mais tarde estariam enfrentando uma atroz fatalidade.

Nas primeiras horas do dia seguinte, um abalo sísmico estremeceu a ilha, sacudindo-a de um lado para outro numa agitação tamanha que mais parecia querer arremessá-la ao mar. Um violento maremoto havia eclodido. Não obstante a distância do epicentro, a centenas de milhas dali, o fenômeno provocara gigantescas ondas que agora chegavam destruindo o que encontravam pela frente, numa arrebentação ensurdecedora e pavorosa, fazendo daquele pequeno paraíso um verdadeiro inferno.

A mulher, aflita, tomou o filho nos braços e saiu desesperada na direção do monte mais alto. O menino chorava e apertava cada vez mais o corpo materno. Logo atrás o mundo se desfazia num turbilhão, reduzindo àquela minúscula solidão à quase nada: um cume de monte e um reduzido número de sobreviventes.

Ficaram ali sob as intempéries da natureza enfrentando um sol causticante e ventos tempestuosos. À noite, a temperatura caiu drasticamente e sobreveio o frio e a desolação; o mais aterrador: o monte aos poucos submergia, reduzindo ainda mais o espaço em que se refugiavam. Os náufragos então se instalaram da melhor maneira possível, como se aquele reduzido pedaço de terra à tona de água pudesse salvá-los por mais tempo.

No dia seguinte, despertaram cercados de destroços e cadáveres… Diante daquela cena dantesca, avistaram, enfim, a salvação: a proa de um navio, na verdade um veleiro, o Iate “Comandante Barroso”, que deslizando, aportava como um anjo…

Não sei o motivo dessas lembranças tão remotas e sofridas, mas, efetivamente, a força desses acontecimentos é tal que, apesar de me manter calmo, agita a poeira de minha memória como um vendaval. Talvez o mundo seja mesmo movido pelo nada, solto na leveza fantasmagórica do passado. Diante dessa cumplicidade, desconfio de que o tempo devora palavras esquecidas; acaso, imagino, porque a palavra não está apenas no texto, no livro, mas também no vento, nas coisas passantes, em suas múltiplas formas…

A Ilha desapareceu na palavra e no mar, passou no tempo como muitas outras coisas passam, mas viverá no imaginário de muitas gerações como um paraíso perdido, uma ficção.

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