Os sequestros dos galos

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Os sequestros dos galos

– Isso tá me cheirando a sabidência desse povo da Matarazzo! Disse Maria Isabel vindo da cozinha para a sala com uma nova palavra. A cozinheira de dona Lulu era assim, ia inventando palavras  sem saber que as inventava. No mercado, a pesadeira do seu Rominho, que transformava gramas em quilos.  À  tarde, quando ia à padaria era o sol caretando ela. E agora, aquele negócio de sabidência por causa dos sequestros dos galos.

Não se falava outra coisa em Macau. No Grupo Escolar Duque de Caxias e nas Escolas Reunidas do Porto do Roçado as crianças estudavam agora sobre reis e seus reinos, príncipes e seus principados, duques e seus ducados, barões e seus baronatos e condes e seus condados. Nos bares e cabarés era o assunto: a vinda do Conde Matarazzo a Macau em visita oficial ao seu baronato de sal e barcaças. Nas rodas dos homens do governo, um deles falou “alvoroço” na cidade por tão ilustre visita e outro corrigiu “frisson”, fica melhor nesse caso em se tratando de conde.

A história começou não se sabe onde, mas Doutor Gamaliel, o gerente da empresa em Macau achou melhor não correr riscos e mandou sequestrar os galos. Todos num raio de oitocentos metros da casa onde dormiria o ilustre visitante.

Correra a história que o Conde Matarazzo não suportava o canto dos galos. E todos foram recolhidos,  uns pacificamente, outros nem tanto, mas todos pelo bem de Macau, afinal, o Conde Matarazzo era o homem mais rico do Brasil, quiçá do mundo, e tinha negócios em Macau o que não era pouco.

Eram os sessenta dos novecentos e o conde chegou de avião, desceu no Tambaú com a comitiva esperando, olhou todo mundo por cima, conferiu salinas e barcaças, não visitou e nem recebeu o prefeito da cidade. Uma decepção para os macauenses.

No outro dia, comentou-se tudo na casa da dona Lulu. E foi Maria Isabel quem fechou a conversa vindo lá da cozinha: – Onde já se viu não gostar de canto de galos? Ora, esse conde tem cada condisse! E estava criada mais uma palavra.

 

De Claudio Guerra para o baú de Macau. Das recordações dos meus amigos macauenses.

 

 

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