A Praça da Conceição

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A Praça da Conceição

Hilma Coutinho [*]

Foto de autor não identificado, decada 40, Ato cívico na Praça da Conceição, arq. desconhecido

A Praça da Conceição

Só me traz recordações

Do meu tempo de criança

E de outras gerações.

A praça foi construída

Projetada para agradar

Mas não foi valorizada

Pelos filhos do lugar.

Uma obra de destaque

Uma bela edificação

Deixava-nos envaidecidos

Pelo esmero da construção.

Um obelisco gigante

Atraia muita atenção

Uma coluna de mármore

Feita em grande proporção.

Mesmo assim, foi desprezada

E por pouco ela escapou

Mas teve um dos batentes

Soterrado sem pudor.

Diz o dito popular

Que “recordar é viver”…

Quem não lembra da Furiosa

Tocando com muito prazer.

Com seus dobrados, bem dobrados

As valsas, frevos e marchinhas

Fazia a criançada dançar

No ritmo de cada notinha.

E assim todo domingo

Ficávamos á esperar

A banda aparecer

Para a retreta começar.

Cadê a Praça da Conceição?

Respondam-me por favor

O que foi que lhes fizeram

Destruíram seu valor?

Quem não lembra os bons momentos

Vividos na Praça da Conceição

Dos passeios de mãos dadas

E toda aquela emoção.

Falando ainda em passeio

Havia também distinção

De um lado as moças decentes

Do outro ficava o povão.

Passeávamos em volta da quadra

Na maior animação

Era costume dar os braços

Sem causar admiração.

Quanta conversa eu ouvi

E histórias bem cabeludas

Como aguardar os navios

Pelas garotas abelhudas.

Não, não se dizia ficar

A onda do momento, era flertar,

Que demora para se firmar

Quanta troca de olhar, para poder namorar.

Passeando e passeando

Pela praça de mansinho

Começávamos a observar

Os garotos de fininho.

Tudo bem escondidinho

E com muita descrição

O coração acelerado

Era o despertar da paixão.

 

Sim, no Studio da prefeitura

Havia um serviço de som

Anunciava a todos

Boas novas em bom tom.

As gravações e mensagens

Constavam da programação

Deixando a moçada assanhada

Ouvindo com muita atenção.

Assim falava o locutor:

“Você vestida de azul, ouça essa gravação

Que alguém alto e moreno

Lhe oferece com paixão”.

Que correria e comoção

Quando o microfone da praça

Anunciava prá todos

A hora da reclusão.

Havia uma música de alerta

Que despertava atenção

As donzelas de fininho

Já sabiam de ante-mão.

O locutor muito educado

Soltava o som com prazer

Tocando “Apartamento Azul”

Era o toque de recolher.

A moçada obediente

Não queria confusão

Tudo era tão divertido

Para aquela ocasião.

Eu ouvi há poucos dias

Alguém falando com emoção

Que a mola de Macau

É a Praça da Conceição

 

A praça hoje não é do povo

Que tristeza que horror,

Virou referência política

Ficou fria e sem calor.

Isso é Democracia,

Ou abuso de poder?

Devolvam o poder ao povo

Ele sabe o que fazer

Foto de autor não identificado, década 50, Praça da Conceição, arq. Professora Anaíde Dantas

 

[*] Hilma Coutinho é macauense e poeta [maio de 2010]

 

 

 

 

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