Porque alguém falou

Porque alguém falou

Foto de autor não identificado, década 50, Barcaça Aura, arquivo: Professora Anaíde Dantas

Chico de Neco Carteiro[*]

 

O desbaratamento de quadrilhas e mais quadrilhas de traficantes de drogas na favela da Rocinha e mais outros esconderijos nos morros do Alemão e do Vidigal no Rio de Janeiro, deveu-se à ação de policiais bem adestrados que obtiveram informações de moradores dessas comunidades. O sucesso da caçada aos chefes da poderosa rede de mal-feitores e suas prisões credite-se à cooperação decisiva dos que viviam amedrontados pela ameaça dos meliantes.

Difícil aos Agentes da Lei desbaratar esse antro pernicioso, e mais a apreensão de armamentos de uso exclusivo de instituições legais, não fosse a ajuda das populações faveladas, denunciando os manda-chuvas do crime.

Segundo depoimento de um categorizado oficial responsável pela vitoriosa operação, foi dado um grande passo para trazer de volta a sonhada paz aos pontos dominados pelos traficantes. “Ainda há muito que fazer”, asseverou o policial.

Tivemos horas e horas seguidas de estações televisivas mostrando a alegria estampada no rosto dos que viviam sob o julgo do banditismo. E a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde está incrustado o maior centro da criminalidade, vibrou com o resultado do elogiável trabalho.

A frase título deste texto me fez retroagir ao passado. Nos primórdios dos anos quarenta, o mundo via as nações entrarem na mais sangrenta batalha que se tem notícia até hoje: a Segunda Guerra Mundial.

Na agência do Lloyd Brasileiro, em Areia Branca, se via um cartaz afixado nas paredes. Era um cartaz colorido que chamava atenção. Nele, além do dizer “porque alguém falou”, mostrava um navio soçobrando e um marinheiro agarrado a um salva-vida. A tela insinuava que um tripulante havia falado sobre o destino de sua embarcação. Como não houve sigilo, a notícia fazia crer chegara aos ouvidos da temida quinta-coluna.

Àquela altura o Brasil já perdera quase três dezenas da sua frota mercante. As vidas de mais de quatrocentos brasileiros tinham naufragadas com os seus barcos para a profundeza do oceano.

A frase que há poucos dias fez vibrar de alegria milhares de brasileiros, há quase setenta anos também encheu de tristeza muitas famílias do Brasil.

Assim, tem razão Billy Blanco compositor da letra cujo estribilho diz: “o que dá pra rir dá pra chorar”. Cito alguns versos do samba “Choro Chorado”, do aplaudido compositor paraense, desaparecido recentemente. Ei-los: “Somente a palavra ‘sofrência’/ que em dicionário não tem/ mistura de dor, paciência/ que é riso e que é pranto também/ define o Nordeste que canta/ o canto chorado da vida/ reclamam no Sul chuva tanta/ errou de lugar na caída”.

O estribilho da melodia calha perfeitamente com a alegria de hoje e a tristeza de ontem.