Martiniano

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Foto de autor não identificado, década 50, Cine Éden, arquivo: Francisco Gama

Martiniano. Três léguas numa carroça puxada por um Tordilho, que parecia mesmo um cavalinho de carrossel. Nela, dois ou três latões de leite. Corria a cidade e sempre vendia tudo. Quase tudo. O leite era bom e honesto e um sino anunciava a carroça de leite de Martiniano. O leite vinha de tres léguas, três longas léguas de estrada de barro. No verão, silencio, poeira e os galhos secos estralando pelos intrincados caminhos dos sítios e fazendas do Amargoso. No inverno, tudo no cio: plantas, insetos e animais. Quando ficou cansado demais para vender o leite, passou a vender querosene. Mudança e tanto e o povo que não sabia, ainda vinha com a vasilha para apanhar o leite. Foram se acostumando, afinal querosene não podia faltar nas lamparinas, eram elas que mitigavam a escuridão das noites de Macau.

Martiniano. Foto gentilmente enviada por Dimas Ramos. Martiniano é seu bisavô.

Martiniano não lia nem escrevia. Não sobrou tempo e nem tinha como. Talvez, se se esforçasse um pouquinho iria aprender em Carapebas, terra de povo inteligente. “Inteligente ou doido”, me corrigiram agora. Eu não faço conta, acho todos inteligentes. Doidos somos todos nós, um pouquinho, sempre. E então, depois de cochilar dez vezes em cima da carroça de volta para o Amargoso, viu que não dava mais. Mudou-se para Macau no momento em que Joaquim de Paiva montava sua bomba de combustível. Mas engana-se quem pensou que foi só a desistência do leite que o levou a Macau. Foi não. Ele já vinha vender o leite para passar na frente do Cine Éden e namorar cartazes que Luiz Gomes desenhava com maestria. E parava tudo quando via Cosme na sua fantasia do pastoril Sempre Viva anunciando o filme no megafone verde. Um dia entraria no cinema e assistiria o filme. Era seu desejo. Seu único desejo naquela sua vida cansada de vendedor de leite ou querosene, esperando sempre que anunciassem navios no Lamarão para receber os fiados. Encantava-se com as narrativas dos amigos que faziam questão de contar para ele. – Martiniano, aí o bandido pulou no seu cavalo e saiu em disparada. A poeira cobriu tudo e ninguém viu mais nada! Martiniano vibrava, não porque fosse de má índole, mas sempre achava que toda fuga merecia ajuda, nem que fosse da poeira. E então, a partir do dia que passou a morar em Macau e vender querosene, Martiniano foi todos os dias ao Cine Éden. Era melhor do que havia imaginado e acompanhou o primeiro filme ouvindo um menino sentado à sua frente que lia as legendas em voz alta. Tudo resolvido, pagaria o ingresso do leitor das legendas. E todas as noites quando a silhueta de Martiniano surgia na esquina sob a luz mortiça do poste, a quinze minutos da sessão, os meninos ansiosos, comemoravam.

Claudio Guerra. Ficção baseada nas memórias dos macauenses Zé de Hipólito, Getúlio Teixeira, Laércio Bezerra, Terezinha Bezerra e Maria do Rosário. E ainda a obra Um Rio Grande e Macau, de Getúlio Moura.

 

 

 

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