João Vicente Guimarães Barbalho

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O povo e o Bicho[em cordel] . Projeto Moinho Velho. A “Peleja de Recado: de João de Calais com João Vicente”. Autor: João Vicente Guimarães. Macau. 1997. Edição Independente;

O POETA E O ARTRÓPODE - Claudio Guerra para a Folha de Macau, agosto de 1997

Perseguir poetas?! Ora bolas! Só faltava essa aqui em Macau. O poeta João Vicente ser processado em razão de um reles inseto!

Tudo começou com a publicação do cordel “O povo e o bicho”, pequena obra de arte na forma de peleja de recado entre João de Calais e João Vicente. O motivo da querela é o verso:

A colheita só vai ser garantida/ se tirar o bicudo do algodão.”

Verso de reconhecida verdade para todos aqueles que conhecem o estrago que o bicudo provoca em todas as lavouras que penetra, principalmente se for de algodão doce.

Pois bem, com esse singelo e verídico verso o nosso amigo João Vicente, artista de reconhecida sensibilidade seja na pena ou no pincel deve enfrentar o tribunal, pois houve quem viu nisso um ataque, uma ofensa, uma desfeita, uma crítica pessoal. Besteiras! Afinal, quem é o poeta?

O poeta é um fingidor, /Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor /A dor que deveras sente.”

É o que diz o poeta maior “da última flor de Lácio, inculta e bela”, Fernando Pessoa. Mas também não teria graça nenhuma se o poeta poetasse apenas por poetar, pois o poeta é também “aquele homem que se apropria dessas sensações do cotidiano, das paixões humanas e elabora a partir desses elementos, uma nova percepção do mundo em que se encontram.”, é o que diz a professora Rosário Guerra.

E é por isso que o poeta vira e mexe encontra “uma pedra no meio do caminho”, quando não uma pedrada na cabeça. O primeiro entrevero envolvendo um poeta que se tem notícia aqui na terra das salinas ocorreu na década de 50 entre o Cabo Porfírio e o poeta chamado Zé da Maraca, que bebiam na zona do meretrício. Tudo por conta de uns versos bocagianos que o poeta arrematou um desafio:

Nasce uma puta sem brio/ Seculada de veneta / Esta mulher anda no cio/ Meia arroba de pavio / pega as jangadas no sul / Eu não perco meu trabalho / Na praia de Muriú / Devolvo este caralho/ e meta no seu cú!”

O cabo,  humilhado por perder o desafio, valeu-se da farda e surrou Zé da Maraca em plena Coréia! Mas outros grandes poetas também sofreram ataques, censuras, exílios por conta de suas sensibilidades e verdades. Vejam o que diz o humanista André de Resende de um outro Vicente, o Gil  no Portugal quinhentista:

Vicente, autor e também ator, / eloqüente e muito hábil em dizer / verdades entre gracejos; / Vicente, habituado a censurar maus costumes / entre leves gracejos.”

Pois é, assim era Gil Vicente, o grande trovador português que nos legou riquíssima produção literária e que sentia-se amargurado pelas perseguições às suas obras, pois “tudo o que diz é real, concreto, presente, relacionado com fatos que todos vêem  ou conhecem.”

Mas outros poetas também padeceram  da ira insana de poderosos que buscavam calar, abafar, censurar, impedir  o parto de criações formidáveis, matar a veia poética em delirante cio.

Gregório de Matos Guerra foi um desses poetas massacrados. Nascido na Bahia em 1623, sua produção literária foi densa, lúcida e reveladora e por isso mesmo desagradável aos donos do poder.

Furte, coma, beba, e tenha amiga, / Porque o nome d’El-Rei dá para tudo / A todos, que El-Rei trazem na barriga.”/O Demo a viver se exponha, / por mais que a fama a exalta, / Numa cidade, onde falta / Verdade, Honra, Vergonha.”

“Pelo crime de sua poesia” Gregório foi perseguido e mandado para o exílio na África.

E o que dizer de Bocage ( 1765-1805) o mais maldito dos poetas malditos que foi deportado para Macau, a outra, a da China:

Cara de réu com fumos de juiz, / figura de presépio ou de entremez. / Mal haja quem te sofre ou quem te fez; / Já que mordeste as décimas que eu fiz.” /Refalsado animal, das trevas sócio, / Depõe, não vistas de cordeiro a pele! / Da razão, da moral o tom que arrogas, / Jamais purificou teus lábios torpes, / Torpes do lodaçal, donde zunindo / (Nuvens de insetos vis) te sobem trovas / À mente erma de idéias, nua de arte.”

Pois é João Vicente, já começo a sentir uma pontinha de inveja ao ver que você está em tão grandes e sábias companhias. E o artrópode? Ah! já ia me esquecendo. O artrópode é um inseto!

 

João Vicente em fotos

Outras obras:

Gira do Exu Tranca rua das almas – roteiro para iniciantes

A Peleja do Pau Torto – Literatura de Cordel

Olhos Ateus

A Escola de Macau

Poesia:

Solidão felina

Inconfidência

 

 

 

 

 

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