Chico Daniel, o grande mamulengueiro em Macau

O mamulengueiro Chico Daniel em Macau

Foto Sávio; 1991, Arte na Praça, João Eudes anunciando Chico Daniel ao fundo armando a empanada dos mamulengos; arq. João Eudes Gomes

Num depoimento à TV Cabugi em maio de 2002 o escritor Ariano Suassuna – autor de obras como o Auto da Compadecida e a Pedra do Reino que viraram minisséries na TV Globo – disse o seguinte: “O melhor mamulengueiro atualmente do Nordeste é daqui, Chico Daniel. Eu acho que ele é um ator extraordinário”. Eu concordo com o grande escritor brasileiro. Do pouco contato que tive com Chico Daniel pude perceber sua grande sensibilidade para as coisas da vida e isso só existe num grande artista. Quando ouvi falar dele pela primeira vez imaginava uma dupla, o nome soa como uma dupla. Só quando o conheci é que percebi que eram vários, vários personagens numa só pessoa. O pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel também fala de importância de Chico Daniel para o teatro de bonecos do Nordeste e destaca que Chico Daniel sabia criar o imponderável – conduzia o diálogo entre os bonecos, fora de cena – os bonecos só existiam na imaginação do público. A de Baltazar se vestindo era uma das cenas que sempre levava o público ao delírio! Chico Daniel faleceu agora em março aos 65 anos vítima de um ataque cardíaco. Sobre ele ficaram as recordações pessoais e duas obras que guardo com muito carinho: João Redondo – Teatro de Bonecos do Nordeste, do Professor Deífilo Gurgel, publicação de 1986 da Editora Vozes em coedição com a UFRN e Chico Daniel – A Arte de Brincar com bonecos, de 2002, Organização das professoras Ângela Almeida e Marize Castro e fotografia de Giovanni Sérgio, publicação do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN.

Chico Daniel em Macau, Lápis de cor sobre papelão, Cagê

Quando os ventos da democracia finalmente sopraram no início da década de 80 no nosso país e a pressão popular acelerou a abertura política “lenta e gradual” do General Figueiredo, apesar do inconformismo dos setores atrasados da burguesia, a anistia, a legalização dos partidos comunistas e as eleições diretas se tornaram inevitáveis. Por essa época, sob a coordenação do companheiro João Evangelista ajudamos a fundar em Macau o Partidão – o Partido Comunista Brasileiro — e procuramos logo de início estabelecer uma agenda cultural que ajudasse a “dessatanizar” os comunistas numa cidade marcada por intensas perseguições durante as ditaduras – de Vargas, de Dutra e a dos Generais — e que sempre tornou muito difícil a vida dos comunistas e dos sindicalistas que ousaram lutar por pão, terra e liberdade. Agora era provar ou provar que não comíamos criancinhas. Também por essa época inauguramos a sede do Partido num velho prédio da Padre João Clemente e passamos a organizar palestras, exibir filmes, e a realizar festividades por ocasião das datas importantes para a democracia, de maneira a mostrar da forma mais transparente possível a nossa prática política. Foi o companheiro Arnaldo Marcelino que juntamente com Américo e Elson Cunha organizava as atividades do Partido que me falou pela primeira vez de Chico Daniel. Disse-me várias vezes e com muita empolgação do mamulengueiro Chico Daniel e que seria interessante promover algumas apresentações para o trabalho de divulgação do Partidão na comunidade. Eu que não conhecia nada de mamulengo, não levei muito em conta a proposta do companheiro e pensava que a exibição de filmes na sede do PCB fosse a ação mais efetiva. Isso até o dia em que exibimos o belo filme “Il pleut sur Santiago” do diretor Helvio Soto sobre o golpe militar de 1973 contra o povo chileno e o Presidente Salvador Allende, na operação organizada pela CIA, comandada pelo general Pinochet e conhecida como “Chove sobre Santiago”. O filme não era dublado e ao final restamos eu, Elson, o Américo e o Toquinha [in memoriam] nosso vizinho e que não perdia uma sessão de cinema do PCB, mas sempre adormecia durante a exibição. Só aí fui perceber a inviabilidade dos filmes não dublados. A plateia não conseguia acompanhar as legendas. Com a dificuldade de bons filmes dublados, partimos para outras formas de ação cultural. Em meados de 80 finalmente conseguimos trazer Chico Daniel para algumas apresentações, coisa de dois, tres dias. E Chico ficou hospedado na minha casa, ali quase de frente ao cruzeiro, na Esperidião Coimbra. As apresentações de manhã e à noite deixavam a tarde para o descanso de Chico Daniel. No dia seguinte à sua chegada, quando voltei do trabalho, à tardinha, Damiana, que foi nossa fiel escudeira por quase dez anos, com cara de muito assustada me reteve logo na entrada de casa e me disse: – “Seo Cláudio, esse homem que tái é doido de pedra! Não é que passou a tarde toda falando com os seus bonecos ai no quarto! Eu tô aqui morrendo de medo!” À noite quando íamos para mais uma apresentação, desta vez no Porto do Roçado, eu puxei o assunto com Chico. – “Ô Chico, a Damiana me disse que você passou a tarde toda falando sozinho, como é isso?” Chico sorriu e me disse: – “Mas não é que Baltazar anda me dando problema! É umas falas novas aí que ele inventou e eu passei a tarde toda treinando!”. Era assim a relação de Chico com seus bonecos. Eles não eram invenção, existiam de verdade e tinham vida própria. Em 1993 o importante projeto “Arte na Praça” organizado graças à tenacidade e desprendimento do agitador cultural João Eudes Gomes — o macauense que mais divulgou positivamente o nome de Macau na imprensa do Rio Grande do Norte — trouxe novamente Chico Daniel a Macau. Nessa oportunidade fomos a Barreiras numa noite de sábado para uma apresentação. Na aprazível pracinha em frente à igreja de São Sebastião Chico Daniel armou a empanada e iniciou a brincadeira. Desta vez se fazia acompanhar por um auxiliar bem jovem – parece-me que seu filho — que o ajudava nas apresentações. A brincadeira ia bem, o povo se divertindo muito, a praça cheia de belas mocinhas e o auxiliar de Chico Daniel de olho nelas. Com pouco mais de quarenta minutos de apresentação Chico Daniel anuncia o final do espetáculo sob o espanto de todos. Fui logo falar com ele assim que saiu da tolda e ele – bastante chateado — disse que o seu auxiliar tinha dito que mandaram encerrar a apresentação porque estava na hora de começar a missa. Tudo invenção que Chico só descobriu depois. O auxiliar de Chico que já tinha botado o olho numa das garotas e parece que tinha sido correspondido estava num pé e noutro para Chico terminar a apresentação para ele começar o namoro. Na nossa pouca convivência, foi a única vez que vi Chico Daniel mal humorado. Chico Daniel viria mais uma vez a Macau pelas mãos de João Eudes durante a nossa campanha para a prefeitura de Macau em 2000. A última apresentação que eu assisti foi apoteótica. No Valadão em frente ao estádio Walter Bichão, a rua cheia, o povo vibrando com os bonecos de Chico. E eu chorei de rir mais uma vez com a apresentação de Baltazar e a sua atrapalhação para vestir as calças. Claudio Guerra, junho/2007