“Botar água de ganho”

“Botar água de ganho”

Foto de autor não identificado, década 50, Esperando a água na rampa da Prefeitura, arq: Francisco Gama

Olhou para o rio e viu que a maré ainda estava “a meia”, as croas de fora e uns filetes d’água correndo sem direção. Amaldiçoou prefeitos e governadores que não mandavam desobstruir o rio cada vez pior para a navegação. Aquilo prejudicava a cidade. Dividia a culpa dos prefeitos e governadores com os políticos de Mossoró que levavam o dinheiro todinho para a dragagem em Areia Branca onde o rio quase nunca assoreava. E ficava ruminando com raiva: mais uma vez os de Mossoró prejudicando Macau, eles que já tinham empalhado por 30 anos a ferrovia em Epitácio Pessoa. Passou um aguadeiro com o calão e latas em direção à rampa e disse sorrindo: – Pense não Zé de Luca, a maré já chega! Não fez conta, sabia que ia demorar. Maré de minguante que quase não botava na balaustrada e que o bote de aguada faria mil desvios da entrada da barra até o porto. Depois pensou também que àquela hora o bote já estaria navegando pelo canal do meio que era mais fundo. Resolveu ir. No trapiche viu a fila comprida da ansiedade. Não fosse aquele o seu ganha pão, sua profissão “botar água de ganho”, voltaria dali. Entrou na fila. O povo impaciente. O bote já estava ancorado. Nininho e Narciso, os barqueiros, em terra. Traziam a água de Ponta de Pedra, léguas dali. Venciam aquele pedaço do Atlântico roçando praias e mangues acompanhando a restinga da Ponta do Tubarão, açoitados pelo Leste e cuidando para não encalhar nas croas. Era a água das dunas que se formavam por trás dos povoados de Barreiras e Diogo Lopes aflorando na beira mar. Enfim, viu Zé Rita, aperreado, bombear a água do bote para o Tanque da Prefeitura, tudo certo: a água também em terra. O problema foi quando Zé Rita começou a despachar. Viu o sujeitinho pensando ser esperto aproveitar-se da confusão e tentar “furar a fila”. Foi logo desmascarado e calões baixaram no lombo do infeliz. Apanhou muito até que um maioral decretou: –Pode parar! Já está de bom tamanho! O sujeitinho com cara de fuinha ficou num canto todo amarrotado, a cabeça baixa olhando todo mundo com o rabo do olho. Era assim: de vez em quando aparecia um espertinho para apanhar. E apanhava.

De Claudio Guerra para o baú de Macau [Das lembranças dos amigos macauenses Zé de Hipólito e Getúlio Teixeira]