João de Aquino

0

Obra: Monsenhor Honório que eu conheci; Autor: João de Aquino; Edição independente; Fundação José Elviro, 2003, Macau[RN]. p. 14 Depoimento: Monsenhor Honório por João de Aquino [excerto] Eu conheci Monsenhor Honório como um Padre simples, amigo, paciente, educado, religioso. Um católico muito devotado à Sagrada Eucaristia, ao Santíssimo Sacramento. Um sacerdote humano, mostrando a sua vocação recomendada pelo Mestre. Humilde, com muita resignação, é esse o Monsenhor Honório que eu conheci. … Tinha em sua casa uma sala onde recebia as pessoas, ouvia seus problemas, aconselhava, e não permitia ser interrompido. E preocupava-se muito com a mocidade, a criança, os adolescentes, com os justos e injustos. …


 

 

João de Aquino,o homem que lutou contra a escuridão Texto de Claudio Guerra para a Folha de Macau em setembro de 2007

No fim do século vinte, muitas crianças japonesas acreditavam que as bombas de Hiroshima e Nagasaki tinham sido lançadas pelos russos”. A frase é do escritor Eduardo Galeano que nos alerta sobre a inversão dos fatos e a proibição da memória. E como não temos memória, passamos a acreditar que as coisas ocorrem por pura fatalidade. E a cultura, diz ele, passou a ser a “cultura de desvinculação”, pois “as coisas ocorrem sem motivo”.

Aqui no Rio Grande do Norte, uma história contada às avessas quer nos fazer acreditar que os tapuias foram culpados por morar aqui quando os europeus invadiram a terra. E hoje, sofrem a acusação de assassinos dos portugueses, os mesmos portugueses que dizimaram os povos indígenas dessa terra de Santa Cruz.

Em Macau, poucos jovens e crianças sabem que este chão de sal está manchado pelo sangue dos seus antepassados e como foi árdua a luta contra a natureza inóspita para conquistar cada pedaço de terra e construir a cidade. Uma cidade que já inspirou pelo menos dois belos romances e que talvez poucos conheçam: Macau, de Aurélio Pinheiro, na década de 30 e Barro Blanco, na década de 60, de José Mauro de Vasconcelos.

É contra a proibição da memória que muitos professores macauenses travam sua luta diária e que ganham dimensão livros como Macauísmos, de Benito Barros: Um Rio Grande e Macau, de Getúlio Moura e Memória de Macau, de Helio Dantas. É preciso recordar, sempre.

Pois bem, eu falo sobre isso para ressaltar que em Macau, houve quem lutou contra esse obscurantismo. E eu sei que num dia qualquer de junho de 1990 um homem simples e altivo que lutou contra a escuridão disse: “A cultura em Macau está desprezada e estão fazendo pouco caso do seu valor”. E disse também o homem simples e altivo nesse dia qualquer de junho de 1990, “A cultura nunca morre, mas é preciso renová-la”.

E disse mais ainda esse homem simples e altivo, naquele dia de sol ou de chuva de junho de 1990, “Para a mocidade é coragem e estudar, pois o homem estudando consegue compreender a realidade e ter liberdade, o que o ignorante sem estudo não tem”.

Esse homem simples e altivo disse esses ensinamentos para o pequeno jornal Luta Acesa que era editado em Macau por um grupo de jovens que também lutavam contra a escuridão reinante.

Esse homem travou por anos e anos uma luta sem tréguas contra a poeira, o cupim, a traça e uma luta maior ainda contra a insensibilidade do poder público. Os sucessivos governantes municipais talvez achassem a memória perigosa e por isso nunca deram atenção àquele homem simples e altivo e ao seu trabalho de colecionar as histórias da cidade.

Esse homem simples e altivo foi por muitas décadas o guardião da história da cidade. E pessoas de Macau e do mundo inteiro puderam conhecer um pouco mais da cidade através das mais de 5.000 peças que o homem guardou e conservou para contar a história de cada uma. Cordoalhas de barcaças, mastros de barcos, redes de pesca, carta de alforria, correntes, placas de empresas de navegação, cadeiras, fotografias, selos, moedas, cartas e livros. E também os objetos de uso, vestimentas, paramentos, enfim um pequeno museu dedicado ao Monsenhor Honório. E contando a história de cada peça contava a história de comerciantes, industriais, salineiros, pescadores, barcaceiros, operários, de patrões e empregados. Contava a história de Macau.

Macau está completando 132 anos de emancipação política. Era uma das datas comemoradas por João de Aquino no Museu. Agora ele está morto. E se foi uma parte da história da cidade. Agora avançam sobre a outra parte. Invadem o museu, depredam e o poder público continua insensível.

Recordação necessária

No dia que cheguei em Macau, um sábado de muito sol no final do ano de 1981, percebi que nem tudo era luz na bela cidade que resplandecia no delta luminoso do rio Açu. Havia trevas, muitas trevas, mas havia também quem lutasse contra elas.

Depois do Hotel de Geraldo e Elione onde me hospedei, o segundo lugar que entrei e me surpreendi foi o Museu José Elviro. Lá, eu e meus pais, tivemos uma aula sobre a história de Macau, ilustrada pelas centenas de objetos que pacientemente João de Aquino mostrava-nos. Ele tinha o perfeito entendimento de que a memória de um povo é o que lhe dá a identidade e lhe reforça a cidadania.  Ao final, João de Aquino nos levou para conhecer um jardinzinho belo e simples que cultivava num pequeno terraço nos fundos do Museu às margens do Rio Açu e nos ofereceu flores, e aí foi outra aula, a de ternura com o forasteiro que chegava numa terra desconhecida. Alguém poderia imaginar melhor acolhida?


 

João de Aquino no texto Lembranças de Macau [p. 65] da Obra: Das Evocações e dos Esquecidos; Autor: Mery Medeiros; Coleção Djalma Maranhão; Sebo da Praça; Natal, 1999.

A cidade de Macau sempre teve em mim um fascínio telúrico e envolvente. O primeiro encontro se deu pelos idos de 1962, quando o país inteiro vivia uma atmosfera de ascensão da classe operária e dos seus mais variados segmentos sociais. A organização quase perfeita do seu operariado me fez tocar a sensibilidade e o arrojo do jovem de então, quase criança, que aprendeu entre os experientes líderes operários daquela época. Foi um tempo que nos marcou com bastante profundidade e moldou a formação do nosso caráter pela sabedoria fecunda que emanava daquelas posições dos velhos marítimos da brava terra do sal. Os hábitos e costumes dos seus habitantes, vindos da faina laborativa do mar, tudo me transmitia uma profunda força de afirmação da vida. Macau ficou para mim como se fora a “Passárgada”, tão decantada em prosa e verso pelo imortal poeta Bandeira, a ilha desejada e ambicionada para o deleite dos nossos sonhos e divagações românticas. No plano da pesquisa histórica, Macau tem sido o depositário fiel de tradições guardadas ao longo do tempo; as suas relíquias históricas zeladas com rigor pelo Sr. João de Aquino, seus blocos carnavalescos que marcaram época pelas ruas empoeiradas da terra do sal, suas figuras folclóricas e pitorescas, enfim, os seus loucos com seus apelidos e suas manias enchendo de alegria espirituosa as ruas da nossa decantada Macau. No que se refere à área cultural, Macau está realmente carecendo de uma atenção mais apurada dos poderes públicos, numa valorização aos que construíram com o seu trabalho e o seu talento a sua história, nos mais variados ramos da atividade artístico-cultural, tendo como exemplo a força poética do imortal Edinor Avelino, filho ilustre de Macau, que cantou com exaltação as belezas da sua terra. Temos no presente como representante autêntico da geração de intelectuais conterrâneos a figura do poeta Gilberto Avelino, filho do saudoso Edinor Avelino. Com estas colocações queremos estender o nosso amplexo fraterno ao município de Macau, do meu passado de jovem e meu presente de quem soube envelhecer aprendendo a ouvir e calar, recebendo as lições dos velhos lobos do mar, lembrando com saudade os dias vividos entre as vagas e as intempéries do alto-mar.


 

João de Aquino – Uma vida dedicada à Fé, ao Ideal e ao Amor.[p.58] da obra, Reportagens que ninguém escreveu do escritor Gilberto Freire de Melo As relíquias históricas cadastradas, catalogadas e arquivadas no Museu José Elviro não são apenas o resultado de um trabalho efêmero. É tudo quanto poderia desejar e de que não poderá jamais prescindir uma comunidade e um povo para o resguardo de sua história. Os objetos de uso pessoal e sacerdotal de Monsenhor Honório; os pelos de sua cabeça guardados em redoma de ouro; os resquícios memoráveis da Ilha de Manoel Gonçalves; os marcos iniciais da povoação, da colonização e da história de Macau, são registros apenas comparáveis às pirâmides do Egito, onde se guardaram, sem o risco do perecimento, as relíquias dos faraós. Para chegar ao que é hoje o Museu José Elviro, João de Aquino enfrentou, não apenas a incompreensão e o deboche da população, mas também vexames de ordem pessoal. Quando Macau não dispunha de maiores entidades culturais a apresentar, o museu era lembrado quando das visitas de excelências mais notáveis. João, que não perdoava os mal-estares passados, revidava contra o autoritarismo, sujeitando-se, às vezes, a ameaças de arrombamento das portas do museu e de prisão, quando entendia não abrir o seu santuário para visitantes levados por seus desafetos. E certa vez, chegando a Macau o Senhor Governador do Estado, foi levado ao museu pela mão do Prefeito local que ordenara, noutra oportunidade, a prisão de João de Aquino por não se dobrar à arrogância de administradores que em nada contribuíam para o museu, mas que o exibiam a visitantes. Chegando ao recinto o Governador, surpreendendo quem ali se encontrava, inclusive João que o recebeu com as atenções merecidas, porém sem deixar de perguntar quem o acompanhava no momento. O governador mencionou as pessoas da comitiva, inclusive o Prefeito Municipal que esperava na calçada, João de Aquino agradeceu e disse ao governador que o Prefeito não era bem-vindo àquele local. Então o governador perguntou: – – E se ele entrasse comigo? – – Sairiam os dois – respondeu João. O Museu de Macau é o fruto do ideal e do amor de João de Aquino, inexistente, na região, em gerações passadas e duvidoso de existir em futuro próximo.

Do livro, Os Homens do Sal no Brasil; autor: Marcel Jules Thiéblot;  SCCT, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, São Paulo, 1979, Coleção Folclore nº 16; p. 74 “…. ‘Areia Branca e Macau está tudo morto’, me disse um velho salineiro. Teatro, não tem mais. Em compensação, há um museu: o Museu José Elviro. O proprietário é João de Aquino da Silva…  João, desde 1935, … coleciona objetos, pedras, livros, manuscritos. Trabalhou como salineiro, depois como encarregado na parte de carpintaria e calafeto, na salina. Mas sempre continuou a colecionar e hoje tem três mil e tantas peças. Como é que esse homem, de chinelas nos pés e sempre pobre, conseguiu adquirir tanta sabedoria e um conceito tão certo do que é cultura espontânea? Se esse homem que, depois de duas horas de conversa, me tratava de irmão, o que não diria ao nosso mestre Rossini Tavares de Lima! São da mesma veia, lutando pela mesma causa. Nesse museu, os historiadores verão o sino da igreja submersa da Ilha Manoel Gonçalves. Quantas peças que dariam inveja ao nosso museu de folclore de São Paulo! João, três anos atrás, foi preso pelo delegado; chamado de palhaço e louco foi amarrado num poste na rua. O grande galpão de 10 por 30 que abriga esse acervo cultural foi lhe emprestado – ironia da história! – pela companhia holandesa que explora o sal de Macau! O dono do CIRNE será o único a reconhecer o valor do trabalho de João? Quem for a Macau não deixe de passar pelo museu José Elviro e de conversar com João de Aquino. Porém não tente tirar fotografia dele nem ligar o gravador que ele ficaria bravo!”

Deixe uma resposta