Memórias do Escotismo 3 – A enchente do rio Açú

Memória do Escotismo  3 – A enchente do rio Açú

Foto Seu Santos, decada 60, Escoteiros no Espinheiro durante a enchente do rio Amargoso, Arimatéia, Milton, Carlinhos, Dão, Ademar e Maninho, arquivo: José Arimatéia Gomes

Da obra: 25 anos depois, de Padre Penha, editada em 1983.

 

Março de 1957. O Rio Açu com uma grande enchente. Famílias desabrigadas, procurando lugares altos. O povo em desespero. Os escoteiros foram convocados e seguiram debaixo de toda a chuva para Pendências. O aterro do Espinheiro ameaçava partir. Era preciso evitar o corte do único meio de acesso de socorro para o Vale do Açú. A tarefa foi confiada aos escoteiros. Um ponto de apoio foi montado em Macau, no Centro Social Pio XI. Os alunos do Ginásio também colaboraram nisso. A amplificadora do Centro, cobrindo toda a cidade, com seis alto-falantes, alertava o povo de Macau para socorrerem seus irmãos. O grosso da tropa deslocou-se para o centro de operações, Pendências. Várias canoas foram adquiridas no Porto de S. Pedro e transportadas para Pendências. Os escoteiros assumiram o controle da Operação Socorro. Aviões da FAB soltavam víveres e roupas, que os escoteiros recolhiam para socorrer o povo. Escoteiros, partem em canoas, com víveres e vacinas para socorrer as populações ilhadas nos altos. Um escoteiro encontra uma velhinha em cima da mesa numa casa cheia de água e a socorre. Zé Alberto, hoje médico, escoteiro de apenas 12 anos, passa mais de três dias viajando de canoa pelo rio Açú, se alimentando de carne de charque crua e garapa de açúcar com água do rio, para levar víveres aos lugares mais distantes – Taboleiro Alto, Escadilha, Logradouro, etc. Queimado pelo sol, roupa enlameada; mas feliz por que tinha ajudado o próximo é recebido pelos seus irmãos com alegria. Já havia sido montado um serviço de comunicação. Dr. Clemente Galvão estava com o seu transmissor montado na Casa Paroquial. Do Arcebispo tinha chegado uma mensagem: Não se sabia notícias de Ipanguaçu.

Foto Seu Santos, década 60, Banda Marcial do Ginásio do Padre e Escoteiros desfilando na rua da Frente, próximo á Prefeitura; arquivo: Getúlio Teixeira

As últimas informações tinham chegado por intermédio de pessoas em Açú que tinham fugido das enchentes. A água invadira tudo, e o povo estava fugindo em desespero. Era preciso um meio de contatar com Ipanguaçú. Como conseguir?… José Pinheiro e Dão se prontificaram. Então resolvi acompanhá-los. Saímos de Pendências, de manhã cedo, navegando em uma canoa por cima da antiga rodagem Pendências/Alto do Rodrigues. Aqui e ali éramos surpreendidos pelo miado de um gato faminto em cima das árvores ou nas cumeeiras das casas. No silêncio do murmurinho das águas, faziam coro o gorjear dos passarinhos nas copas das carnaubeiras. Ao chegarmos ao Alto do Rodrigues, apanhamos um Jeep e seguimos pela estrada enlameada até onde foi possível. Daí fomos a pé. No primeiro rio que encontramos, improvisamos um balsa feita de pau de carnaúba, e prosseguimos a viagem. Mais à frente, encontramos um trator que nos levou até o rio mais próximo. Aí não havia nem sequer, tronco de carnaúba, e tivemos que atravessar a nado. Dão não sabia nadar. E tivemos que improvisar uma maneira de transportá-lo. Seguimos a pé até Ipanguaçú pela estrada enlameada. Ali tudo era desolação. As casas fechadas. A água nas ruas, duas ou três pessoas, somente na cidade. O povo havia saído todo para Pataxó. Fizemos o mesmo percurso de retorno e informamos a Natal para que os recursos pudessem ser mandados a Pataxó, por intermédio da Aeronáutica. Durante anos e mais anos o mesmo trabalho se repetia. Os padres se entusiasmavam com o trabalho dos meninos. E muitos deles faziam a promessa escoteira. Assim em 64 e 65.