Geraldo Queiroz

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Autor: Geraldo Queiroz; Obra: Geringonça do Nordeste – A fala proibida do povo; EDUFRN; Natal, 2009. Orelha do livro pela professora Maria da Conceição Passeggi, da UFRN. A história só existe pelo discurso. Para que ela seja boa, é preciso que o discurso seja bom. Essa afirmativa de Georges Duby, representante da segunda geração da Escola dos Annales, explica o sucesso do livro A Fala Proibida do Povo, agora em sua segunda edição. Educador e jornalista Geraldo Queiroz articula, de modo incomum na escrita acadêmica, liberdade imaginativa e rigor científico em resposta à questão central de sua pesquisa: Por que o trabalho de Clementino Câmara [Geringonça do Nordeste] não foi publicado?

Na tradição da escola fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre, o autor reaviva a obra e a memória de Clementino Câmara na conjuntura política do Estado Novo getulista, em cenário potiguar, e vai tecendo o envolvimento de atores sociais – Estado, Igreja, intelectuais – no arquivamento de seu trabalho. A triangulação das fontes documentais desdobra-se no processo estético de retextualização, que oferece ao leitor, em camadas superpostas, a recomposição histórica da mentalidade da época. Dois momentos merecem destaque no livro. A entrevista [imaginária] com Clementino Câmara, construída, notadamente, a partir do livro autobiográfico Décadas [1936], na qual o autor, revestindo-se do papel de repórter, envolve-se e dá a palavra ao professor autodidata, fazendo alternar a sua fala com a voz de Fernand Braudel para evidenciar as ressonâncias entre o pensamento de Clementino Câmara e o do historiador francês sobre a pesquisa histórica. No segundo momento, Diários e breviários, a história narrada é vivida, dia a dia, graças a editoriais e manchetes, cuidadosamente escolhidos. O cotidiano descortina-se aos olhos do leitor, que apreende o fenômeno histórico de modo não linear.

Para Le Goff, um dos fundadores da Nova História, o passado depende parcialmente do presente, na medida em que é legítimo a história responder aos interesses contemporâneos. Nesse sentido, A Fala Proibida do Povo de Geraldo Queiroz não se limita a uma pesquisa, mas abre-se para acolher dois anexos fundamentais: o dicionário de regionalismos Geringonça do Nordeste que , arquivado sob o pretexto de ser ofensivo à moral, é material raro e precioso para as pesquisas lingüísticas e culturais, e Diálogos em torno do tema, que, além da correspondência dos leitores e repercussões da primeira edição impressa, traz documentos inéditos que traduzem a imagem de Clementino Câmara como avô e pai afetuoso, o que em muito enriquece o significado da permanente construção da memória no trabalho do pesquisador.

O livro tem, portanto, o mérito de tornar familiar a história de vida de um professor de província, politicamente consciente de sua universalidade, cuja obra proibida transversaliza a narrativa e desperta a curiosidade do leitor. Se concordarmos com Le Goff, os progressos da democracia levam o historiador a procurar cada vez mais o lugar dos pequenos na História. O sucesso desse procedimento se explicaria pela necessidade que têm as sociedades de se alimentar de um imaginário real.

Em A Fala Proibida do Povo, o leitor pode apreciar como Geraldo Queiroz satisfaz esse desejo social com talento, ousadia e rigor.

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