Seu Alfredo Teixeira que nasceu num dia de Reis.

Foto Seu Santos, 1961, 50 anos da Farmácia Lourdes de Alfredo Teixeira, ao centro Horacio de Oliveira Neto, vice-prefeito, ao seu lado à frente, à direita, Alfredo Teixeira; arq. Getulio Teixeira

Ainda não eram os tempos da ganância. Se eram, eram para alguns. Era a Macau dos 30, 40, 50, 60 e quando ainda era possível sonhar que o mundo poderia ser melhor. Farmacêutico era farmacêutico e não empurrador de remédios dos suspeitos laboratórios como se transformaram hoje. E então, Seu Alfredo era farmacêutico. Um quase médico, raro naquele tempo. E sua farmácia e residência era ali na Praça da Conceição. Seu Alfredo viveu a cidade de barcaceiros, pescadores, salineiros, armadores, trabalhadores das salinas, calafates, marinheiros, professores, comerciantes e pequenos industriais. Esta era a cidade. Com suas greves, com suas oligarquias, sua falta d’água, luz, esgoto e transportes. Esta era a cidade. Seu Alfredo foi vereador, vice-prefeito, ajudou a fundar a Associação Rural, o Lions e outras repartições para melhorar a vida na cidade . Teve posição política e pertenceu a uma classe social. Viveu a cidade com suas especificidades, uma cidade de trabalhadores do sal. Hoje, 6 de janeiro de 2012 seu Alfredo Teixeira faria 118 anos. Ninguém  vive tanto. Viverão na memória daqueles a quem são caros. E então hoje, o colaborador deste sítio Getúlio Teixeira mandou um recorte de lembranças sobre seu pai. Aquele que é pai duas vezes de Getúlio. E recorda Getúlio das noites interrompidas. Das muitas noites interrompidas de Seu Alfredo para atender aos que precisavam de ajuda. Primeiro os asmáticos. Nas noites e madrugadas frias e secas, faziam fila. Eram muitos em Macau e chegavam sibilantes, tossindo sem parar e quase sem ar. Ao longe se ouvia o chiado na rua. De dentro de casa um dizia: Lá vai mais um para o Seu Alfredo. Um sofrimento sem fim. Seu Alfredo, paciencioso levantava-se, acendia o lampião e abria a farmácia. O paciente sem dinheiro sem nada, só a chiado, o sibilo, a falta de ar. Tomava a Cáxeta na hora e depois, mais calmo dizia: – Tem navio no Lamarão. Na semana que vem eu pago! Outras vezes os partos e as crianças que insistiam em nascer pela madrugada escura de Macau. E lá ia Seu Alfredo, o lampião na mão, a luminosidade fraquinha buscar o conjunto do parto: Pituitrina para relaxar, outra para evitar a hemorragia e mais uma para evitar infecção. O pai saía agradecido. Nasceria mais um macauense. Era a Macau dos salineiros e barcaceiros. A Macau que só existe agora na memória. Nas boas memórias. E a vida é isso mesmo, como diz Garcia Marquez, é viver para contar. E Getúlio me contou essa história.

de Claudio Guerra para o baú de Macau