Bateu saudade!

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Bateu saudade!

Pieter Bruegel, Jogos infantis, óleo sobre tela, Viena Kunsthistorisches Museum

Getúlio Teixeira, menino da Praça da Conceição, nos manda o texto falando da nossa idade mais pura: brinquedos e brincadeiras é um passeio por Macau dos 50 e 60, mas poderia ser um passeio por todas a cidades daquela época, ainda sem televisão, computador e internet . São brincadeiras e brinquedos com diferentes nomes em cada lugar. Assim é que a arraia é a pipa que é o papagaio. O pintor holandês Pieter Bruegel, o Velho, considerado herói nacional na Bélgica, deixou uma grande e significativa produção artística retratando o povo e os costumes do dezessete holandês. Em Jeux d’enfants [1560] – Jogos infantis, ele coloca numa tela de 118 por 161 cm, brinquedos e brincadeiras daquela época. Oitenta e quatro ao todo e alguns deles são semelhantes ao que Getúlio descreve. Da equipe do baú de Macau.

Brinquedos e brincadeiras

por Getúlio Teixeira

Até a década de sessenta, as férias era uma festa só. Em todas as ruas que você passava encontrava a meninada se divertindo. Não tínhamos sinal de televisão, internet nem pensar, vivíamos num mundo criado por nossa imaginação. As brincadeiras, as mais puras e simples. Uma lata de leite, um arame e um barbante transformavam-se num carro que realizava viagens ao mundo dos sonhos. Algumas carteiras de cigarro vazias e duas latas de graxa de sapato era o jogo de “palmear”. Oitenta centímetros de uma tábua de pinho e de flanela, mais um pedaço de câmara de ar e dez bolinhas de gude, de repente, virava uma sinuca. Com apenas três “cruzeiros” e um pequeno passeio à rua do Mineiro, o menino voltava feliz com o seu pião de pereiro para jogar barroca de bico, mancha de pião ou simplesmente para vê-lo rodar na ponta de uma linha de pescar. Uma folha de papel de seda, alguns palitos de folha de coqueiro, metros e metros de linha de pescar, retalhos de tecido e lá estava o menino feliz na rua da Gameleira soltando sua arraia pelo prazer de vê-la subir ao sabor do vento. A meia usada e uma porção de molambos de tecidos, conseguido junto às costureiras e uma calçada regular. Pronto. Estava formada a pelada. O velho bolão foi o ponta pé inicial de muitos craques do futebol macauense. Um aro, fosse de ferro ou borracha com um arame transformava-se em carro imaginário que nos dava a sensação de grandes pilotos com habilidades raras como, frear com precisão, fazer curvas impossíveis e saltar obstáculos quase intransponíveis. Quando nada disso estava ao nosso dispor bastava uma linha divisória, uma camisa ou um pedaço de pano amarrado ao poste e estava formado o jogo de bandeirinha. Ganhava quem conseguisse invadir o campo do adversário, arrancar a bandeirinha e voltar para o seu campo.

Foto de autor não identificado, década 60, Praça da Conceição, onde os meninos "botavam-tôco", arq: Anaíde Dantas

Mas era a Praça da Conceição o palco central de todos. Era repleta de ginastas a exibir suas qualidades de verdadeiros acrobatas e desafiar alguém para que fizesse o mesmo. Esta brincadeira era chamada de “botar toco” [*]. Não me perguntem qual a origem do nome, não saberia explicar, o que sei era que fazia parte do nosso vocabulário. A realidade era que, plagiando o mestre Ataúlfo Alves, nós éramos felizes e não sabíamos.

[*] Em Macauísmos, Benito Barros fala sobre o Botar-Tôco, que quer dizer desafiar. É mais um macauísmo!

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