Das memórias de Zé de Damiana – parte 4

Das memórias de Zé de Damiana – parte 4

[Entrevista de Zé de Damiana, trabalhador e ativista político do PCB em Macau em janeiro de 2010, para a monografia do Professor Jailson, extraímos alguns trechos que estamos publicando neste sítio].

O interessante dessa parte da entrevista é o relato sobre a luta do trabalhador contra os patrões no que diz respeito aos instrumentos de trabalho, no caso, o tamanho da cuia. O sal, depois de cristalizado, era juntado em pequenas pirâmides para secar. Depois de seco era levado para o aterro ou para o embarque nas barcaças que o levavam até o Lamarão onde os navios carregavam. O Lamarão ficava a 8 a 9 léguas marítimas da costa. O processo era totalmente artesanal.

A discussão do tamanho da cuia é interessante. O professor Francisco Carlos Oliveira de Sousa autor do livro Das Salinas ao Sindicato, afirma que O maior contingente de trabalhadores de salina não recebia salário fixo. A remuneração tinha por base a produção, que em geral era paga por alqueire de sal*. Mas, como existiam variáveis formas de mensurar a produção, a discriminação de preços pagos ao trabalhador era estabelecida no Contrato Coletivo de Trabalho, de acordo com as atividades desenvolvidas.

Foto E. Vale, 1940, da barcaça para o navio no Lamarão, do Livro A industria do Sal de Dioclécio Duarte

Zé de Damiana: Mais sou uma pessoa que nunca gostei de cargos… sempre trabalhei a favor dos pequenos, fui muito perseguido… hoje estou aqui graças ao Pai Eterno, dando esta entrevista, porque nunca me encurvei a burgueses, nunca! … quando foi em 1934, aí estava iniciando o movimento do sindicalismo dos salineiros em Macau. Eu trabalhando para na Salina Piratini. Cheguei lá é notei que a cuia era de 7 litros. Ai eu disse: Mais tanto homem aqui se sujeitando a uma cuia dessas. Vamos mandar rebaixar essa cuia. O feitor não estava lá e eu levei a cuia lá para Seu Venâncio que era quem nos liderava e disse: Seu Venâncio essa cuia aqui quem trouxe foi eu para o senhor resolver, falar com o representante da Piratini. Aí seu Venâncio mandou eu falar com o Dr. Cardão. Depois fui trabalhar na Salina Xaréu onde a cuia também era de 7 litros. E foi outra briga.

Observações: Uma cuia normal era 5 ou 5,5 litros. Para encher um balaio era preciso 14 a 15 cuias. O alqueire de sal, 180 quilos.

Da equipe do baú de Macau