Foi um carnaval em Macau

Das memórias de Getúlio Teixeira, macauense da Praça da Conceição.

Foto de autor não identificado, década 50, Bloco da Macaca de Zé Badalo, arquivo: Getulio Teixeira

Era fevereiro, era carnaval. No Porto e no Valadão as escolas de samba ensaiavam.  – Vão sair bonito! Na praça da Conceição, avisava Zé de Buzí, liso e querendo brincar o carnaval. Mas como? Faltava dinheiro para a fantasia. É ano de disputa grande, acirrada: Azes do Ritmo, Imperadores do Samba, as Escolas de Samba de Zé Gilete e de Raimundo da Madame. E os blocos? Lenhadores, Sabiá, Nêga, os Tenentes, os Índios de Seu Manoel. Foi lá para ver e viu que não dava. Havia que ter boa fantasia para não fazer feio e prejudicar o bloco. Tirou escolas de samba e blocos do pensamento. Mas iria brincar fantasiado. Um folião especial.  Papangú não! Não iria servir de chacota para aqueles cabritos varapaus que aperreavam os papangús, querendo rasgar-lhe a fantasia, desmascarar o sujeito. Não! Isso não! Na rua da Gameleira, na casa de Pedrinho Paiva compraria barato as máscaras  que a mulher dele fazia com saco de cimento.  Depois, compraria meia dúzia de laranjinha, faria um tambor de lata de óleo e saco de cimento e então cairia na folia porque afinal ele também era filho de Deus e macauense. Iria pela manhã numa bagaceira qualquer. Na primeira que surgisse na rua.  Ouvisse um saxofone, o Passo da Ema do Seu Virgílio; um clarinete, a Macaca de Zé Badalo; um tarol bem agudo era o Lobo de Damião Gama. Agora, fosse um bumbo fora do ritmo era os Cão, cobertos de lama da maré, parecendo almas sebosas e aterrorizando a criançada. Ele iria, pois os Cão já faziam sucesso até na Redinha. À tarde, disputaria um lugar na sombra na praça da Conceição para assistir o desfile dos blocos e o corso dos automóveis. Depois, vasculharia a praça apanhando tubos vazios dos lança-perfumes, de cobre e que valia dinheiro.

Foto Soares, 1969, Carnaval no Bar Rochedo, na foto: Getúlio, Vera, Vandinho, Concinha e Zé Oliveira entre outros; arquivo: Getulio Teixeira

Feliz, voltaria à noitinha para sua casa no Valadão, topando nas esquinas com os lotes alegres dos foliões que iam para os bailes no Bar Rochedo, na Prefeitura ou nos Tenentes no Porto do Roçado.