É carnaval e um poeta alerta os foliões

 

Foto de autor não identificado, década 50, a Coluna da Praça da Conceição, arquivo: Professora Anaíde Dantas

É Carnaval. Cuidado com as mesas de bar, as calçadas, a coluna  e  a quarta-feira de cinzas, alerta o poeta João Vicente.

quarta-feira!

de cinza em cinzas

os mortos recompõem a vida.

é hora de cair no mangue:

de varrer o chão

pisado por tantas alegorias,

e de lavar as manchas de riso das calçadas.

é hora, que o ano já vem…

e vem cedo.

 

agora é tarde!

é tarde para se esconder, amigo.

cedo, a coluna abre as urnas

para contar os votos

e rasgar a fantasia dos foliões eleitos.

 

e em silêncio, como as formigas,

os segredos deixados nas mesas de bar

devoram as esquinas,

o concreto das praças,

a parede das casas…

 

enfim, a vida começa o seu carnaval!

e tira a máscara que travestia

os foliões inconfidentes.

 

Inconfidência, de João Vicente Guimarães, p.99, olhos ateus, Imperial Casa Editora da Casqueira, Macau-RN, 1998.