Uma poesia de Horácio Paiva

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O ESCUDO DE ORFEU

 

Como quem rouba a luz

entraste na noite

deixando em cinzas

e apagado

o rastro de tua sombra

 

E mais: querias

o teu próprio fim na solidão

 

Mas o mistério não morreu

e trata com a mesma indiferença

a luz e as trevas

 

Olha para ti

e te embaraça

e de novo não sabes onde estás

 

Mesmo sem Eurídice

a solidão é impossível

 

Não há solidão

 

Estamos todos sob os olhares de Deus

e nada lhes escapa

 

Os que vierem

verão

 

O profeta da nudez já anuncia

o véu diáfano

ou a completa transparência

 

E logo serás descoberto

na esquina mais próxima

 

O braço de Eurídice se erguerá

mas em vão:

 

As portas estarão abertas

mas não haverá retorno

 

Exceto para o jovem crucificado

a quem toda pureza foi consagrada

 

 

 

                                                                  

                                               (Horácio Paiva)

 

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