Marinheiro só – resenha Profa. Aparecida Fernandes do IFRN

Aparecida Fernandes   é Professora de Língua Portuguesa e Literatura do IFRN e articulista do portal  www.falariogrande.com.br

“… em especial para Geni, que não deixou a ditadura brasileira tripudiar sobre o cadáver do seu companheiro”. É desse modo que, já nas dedicatórias, Cláudio Guerra, nascido em Paraguaçu Paulista, mas residente no RN desde 1981, macauense por adoção e morador de Natal há alguns anos,  dá os indícios do que será o teor do livro “Marinheiro só” (O baú de Macau – Editora e Artes, 2011. 218 p.).

Na esteira do Romance reportagem, gênero que ganhou força no Brasil a partir dos anos 60, “Marinheiro só” narra a luta de José Manoel e a saga de sua viúva, Geni, para resgatá-lo da vala comum dos desaparecidos políticos. O marinheiro, poeta e sonhador, José Manoel, oriundo do sertão de Pernambuco, chega a Natal, nos anos 60, para servir à Marinha do Brasil. No entanto, havia aí – segundo relata o autor na página 30 (e a história comprova) – “uma contradição tremenda e que parecia estimulada pelos altos escalões. O marinheiro deveria ficar no seu lugar. E seu lugar era embaixo. […] Afinal, não se buscavam oficiais nos confins do sertão brasileiro. Os oficiais tinham origem. Um almirante sempre gostava de frisar isso.”

Foi nessa realidade que José Manoel, como o operário cantado por Vinicius de Moraes, “cresceu em largo e no coração e adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia”. Inspirado por outro marinheiro, o Almirante Negro, alcunha de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, José Manoel junta-se àqueles que fundam a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil – AMFNB, nos anos 60, e inicia sua militância em favor das reformas de base de João Goulart, ao mesmo tempo em que se pauta, entre os membros da Associação, o debate sobre o grande fosso existente entre oficiais e marinheiros, estes que, de origem pobre, viam-se impedidos de seguir carreira na Marinha, enquanto os filhos do almirantado não tinham maiores problemas em seguir a carreira do pai, num processo de quase hereditariedade. Também queriam, os marinheiros, direito de casar, votar, andar à paisana. O Golpe de 1964 interrompe essas esperanças. Mas José Manoel continua esperançoso de um Brasil mais justo que, por extensão, também seria justo para os marinheiros. E milita na organização de esquerda VPR – Vanguarda Popular Revolucionária, agora, também para por fim à ditadura no Brasil.

Poderia, o marinheiro José Manoel, ter comemorado, em 1985, a vitória de sua luta e de seus companheiros: o fim da ditadura brasileira. Porém, como muitos bravos de sua geração, “teve seu rosto cuspido/ teve seu braço quebrado/ mas quando foi perguntado… disse: Não!”. Isso não daria outro resultado que não ser vitimado por outro artífice: a traição do agente do DOPS  ex-marinheiro, Cabo Anselmo, infiltrado no movimento revolucionário e depositário da confiança de José Manoel. Assassinado pela polícia do delegado Fleury Filho, juntamente com outros companheiros, dentre os quais a própria mulher do cabo Anselmo, Soledad, no episódio do Massacre da Chácara de São Bento, em 1973, José Manoel, ou Zezinho, é enterrado como indigente, no cemitério da Várzea, em Recife, e tem seu nome denegrido pelos agentes do DOPS, acusado de terrorista, bandido, detonador de bomba.

É quando começa a saga de Geni, mulher de Zezinho. Como a estilista Zuzu Angel, que desafiou a ditadura para encontrar o corpo de seu filho desaparecido, Geni percorreu a mesma via-sacra da humilhação, do terror para enterrar decentemente seu companheiro. É quando descobre que de muitas mortes mataram seu marido: além da morte física, a morte simbólica por meio da infâmia, da difamação, do desrespeito à sua memória e à integridade física e psicológica de seus familiares, da indiferença ao ser humano. Felizmente, teve Geni melhor sorte que Zuzu Angel, que também foi morta pela ditadura. Depois de conseguir guardar, com a ajuda de um coveiro, por anos, os restos mortais de Zezinho, enterrados embaixo de um pé de fruta-pão, em uma área distante das valas clandestinas da ditadura, Geni, finalmente, em 1995, enterra com dignidade seu companheiro, em um ato de desagravo a sua pessoa em Toritama-PE, cidade que os havia acolhido em tempos de horror.

A narrativa documental de Cláudio Guerra, cujo enredo deve em grande parte aos anos de conversas que teve com Genivalda Melo da Silva, a Geni, viúva do marinheiro José Manoel da Silva, tem a riqueza de aliar minúcias da vida cotidiana do casal, da sua rede de relações, aos fatos históricos com os quais a vida de José Manoel se entrelaça – o que revela o lado de historiador por formação do autor. A técnica do flash-back mantém a coerência narrativa, e interliga com maestria o presente e os fatos que o antecederam, dando fluência à leitura.

O livro, porém, para efeito do gênero romance, peca um pouco do ponto de vista de sua estrutura, ao serem inseridas as informações relacionadas ao tempo histórico de forma deslocada da narrativa. A cronologia e os acontecimentos que lhe são inerentes poderiam, perfeitamente, estar diluídos no enredo, sem prejuízo à sua literariedade. Assim como algumas mudanças de cenário ou acontecimentos poderiam ser início de um novo capítulo. Isso, no entanto, não compromete a qualidade da obra, que é documental, mas não panfletária.

Ler “Marinheiro só” faz-nos entender o processo de como “o tombo do navio ou o balanço do mar”, cantados não sem razão no nosso folclore, ensinaram José Manoel e seus companheiros a nadar em um mar de segregação, injustiças, terror, intolerância. Assim como nos faz parceiros de Geni na via crucis da dor por ter seu companheiro morto sumariamente por querer um País melhor e da busca por seus restos mortais. “Marinheiro só” nos provoca a indignação e aprofunda a nossa sede de ver a Comissão da Verdade trabalhar realmente para esclarecer o que ainda está encoberto desse nebuloso período da nossa história recente.

Mais do que guardar os ossos de José Manoel por anos a fio até poder lhe dar enterro decente, Geni também abriu a possibilidade deste País resgatar sua decência, ao resguardar a memória de um dos mártires brasileiros, como bem o caracterizou o brilhante Cláudio Guerra.