FerroVIA de Demétrio Diniz

0

Obra: FerrroVIA

Autor: Demétrio Diniz, Edição do Autor, Recife, 2007.

Nos poemas de Demétrio há tempos e espaços, há personagens e dramas, há um narrador lúcido que se faz presente com muita intensidade. Os elementos da narrativa estão em seus poemas, cobertos de metáforas e ritmos e da intensa sedução dos textos que se condensam.

Da poeta Anchella Monte na apresentação do livro.

 

 

 

Foto de autor não identificado, década 90, Estação Ferroviária de Macau, arq: desconhecido

Senador Pompeu

Senador Pompeu é uma estação e um destino.

Para muito além do entroncamento

um lugar onde se dormia sobre sacas de amendoim

e mulheres que falavam chiando, o pescoço enfeitado com rosários de catolé.

Página 21

 

Das minhas recordações das estradas de ferro

Estações, estradas de ferro e trens estão encravados em mim. A estrada de ferro de Senador Pompeu, que nunca conheci, entrou em mim numa tardinha boca da noite de setembro  de 2010 em meio à luz difusa quase névoa nas bordas do Atlântico, restinga da Ponta do Tubarão entre  coqueirais e garças pardas  se recolhendo aos ninhais.  A narrativa crua de José, um amigo cearense  fixou em mim como ostras grudadas nos cascos dos botes que avistava entre as gamboas da maré vazante. Craca pura. José narrando, a voz travada quase sussurro e  lágrimas lavando meu rosto. Um drama humano, um drama brasileiro, um drama das maldades do capitalismo. Contou-me que em 70, depois de vinte anos, a caminho de Piquet Carneiro,  em Senador Pompeu mirando a ferrovia ,  teve as notícias trágicas de sua família contadas por um engraxate.  de Claudio Guerra para o baú de Macau