Terpsícore, de Vicente Serejo

0

Terpsícore

[Cena Urbana de Vicente Serejo – JH, 7 de março de 2012, Cidade – p. 13]

Imagem Google

O clube social da minha cidade no meu tempo de menino tinha um nome estranho: Terpsícore. Um dia, depois de algum tempo intrigado com aquela palavra incompreensível, perguntei ao meu pai e ele respondeu, desfazendo o mistério: é a musa da dança. Fiquei com esse nome na cabeça até hoje, mas ainda pergunto: como pode Terpsícore logo ali? Uma musa grega, filha de Zeus, vizinha do mercado  e íntima de um povo simples, na andrajosa realeza dos estivadores, sem ao menos um reinado para viver?

Levei mais tempo ainda para descobrir, naquela juventude descuidada e boa, feita de veleidades intelectuais, que a musa da minha cidade era título de um conto de Machado de Assis. Talvez dos menos consagrados pela crítica, mas não importa. O tempo foi passando, deixei a minha cidade para não mais voltar, mas nunca esqueci Terpsícore. Um dia ainda procurei por ela, numa das caminhadas naquelas ruas, e nada. Compreendi que é das musas essa vida mágica de aparecer e desaparecer dos olhos dos meninos.

Hoje vejo que foram poucas e pobres  as magias da minha infância. Talvez aquelas barcaças indo e voltando carregando sonhos, as alvas pirâmides de sal recortando o azul do céu em geometrias, os cata-ventos, o rio manso, sem história nas suas águas antigas. Talvez as garças em brancos vôos sobre as ilhas de lama que brilhavam refletindo o sol como cristais negros. Quem sabe, o grito de ferro das marretas nas cavilhas, o calafate, o cheiro do piche fervendo naquele azedume forte que empestava o ar da minha rua.

Não se perde, assim, uma deusa. Quem, de vós, teve uma musa na infância, tão misteriosamente viva na parede de um clube? Quando procurei Terpsícore não só havia desaparecido, mas levado os bailes e o saxofone do Mestre Avelino que aveludava o amor tímido nas noites de suas festas. Ficou um prédio que já nem sei se existe. Se pelo menos um dia tivesse sido prefeito, com certeza teria posto uma placa de bronze avisando a quem passasse por lá: “Aqui viveu vinda da Grécia, Terpsícore, a deusa da dança.”

Foto de Autor não identificado, 2010, centro de Macau, ao lado do Mercado Velho, arq: desconhecido

Por essa e por outras hoje procuro a minha cidade e não encontro. Nem sei mais entre todas as fachadas desaparecidas e o que foi feito da minha casa. Do seu pequeno alambrado aberto para o rio, o portãozinho que dava para a rua, o janelão do quarto da minha mãe. Onde a buganvília que se derramava em cachos vermelhos, de espinhos terríveis? O canário da terra, presente do meu avô, na gaiola dourada a trinar anunciando as manhãs? E a tamarineira do vizinho com as suas réstias de sombras do quintal?

Ninguém perde uma musa, Senhor Redator, mesmo apenas escrita na parede de um clube da infância que não pague o resto da vida com a pobreza da inspiração. Por isso fiquei assim, comum em tudo, sem jeito e sem graça. E se até hoje lembro Terpsícore, sabendo que não a terei de volta, paciência. A vida de cronista tem dessas pequenas amarguras. Dessas coisas eternas como o velocípede vermelho que até hoje passeia no sótão daquela casa da infância. Numa viagem tristemente feliz que nunca vai acabar.