Das antigas almas de Macau

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Das recordações de uma amiga macauense

Doentinha, a mãe cuidadosa agasalhou-a bem e a colocou na varanda para tomar o ar das salinas e curar de vez aquela roncadeira obedecendo ao prescrito por Seu Alfredo Teixeira, o farmacêutico que procurava animar os doentes:  — O medicamento na hora certa e ar das salinas e cinco dias está curada! Dizia sorridente. Ficou ali enroladinha na cadeira vendo a manhã chegar no clarão pelos lados do rio e um fio de sol querendo fixar na parede da casa da frente. De repente, a escuridão foi tomando conta de tudo e a menina não viu mais nada. Em seguida ouviu vozes que vinham pela rua entoando um hino choroso que ela nunca ouvira em toda a sua vida de ratinha de sacristia. Depois, surgiu um clarão e viu três piracas empunhadas à frente do grupo de silhuetas de capas escuras e largas e cabeças descobertas. Um refrão estranho e de grande mágoa: e um brado…e um brado … e um brado. Eram poucos e carregavam um ataúde grande e pesado. Seis carregadores, contou. O cortejo seguiu pela rua João Teixeira e a menina saiu até o portão e ficou acompanhando  até que eles entraram no Beco das Almas em direção ao cemitério e ela ainda ouvindo,  e um brado… e um brado… e um brado.  Mais tarde contou para sua mãe que duvidou. Não morrera ninguém naqueles dias e nem era hora de enterrar defunto. E completou:

Foto de autor não identificado, decada 60, Praça da Conceição, arq. Professor Anaíde Dantas

— É isso que acontece com quem aperreia as almas! E a menina recordou que não fazia nem uma semana que ela e as amigas, na Praça da Conceição  mangaram do povo da congregação que seguiam pesarosos a enterrar mais um irmão.

 

De Claudio Guerra para o baú de Macau

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