O irresistível, um conto de Gonzaga Filho

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Do escritor macauense Gonzaga Filho um conto das Quatro Bocas, Mata Sete, carteado e salineiros e com final surpreendente. O escritor Gonzaga Filho é macauense e editor do blog: http://celeirodetalentos.blogspot.com

O IRRESISTÍVEL

Foto Getulio Moura, 2009, Salinas de Macau, arq. Getulio Moura

A lua passeava languidamente pelo céu naquela noite de Quinta Feira, véspera da Sexta Feira Santa. O silêncio tomava conta do velho para-raios que ficava naquela área descampada da velha Coréia. O vento gelado que soprava lá das bandas do Porto do Roçado, deixava aquela noite agradável para um passeio.

Já passava das onze horas, quando Leon levantou-se da mesa de carteado, onde jogava Pif Paf apostado em uma casa de jogo nas Quatro Bocas. Saiu se despedindo dos companheiros de jogo e caminhou em direção ao Mata Sete, onde tomou uma cerveja gelada e conversou com algumas damas da noite, com o intuito de passar o tempo, pois naquela noite, ele não iria para casa dormir com sua esposa que sempre o esperava até a madrugada. Não. Leon iria dormir esta noite com mais uma de suas amantes, iria até o Valadão encontrar com a bela Astride. Maria, a sua esposa que se danasse, pois afinal de contas ele era Leon, O Irresistível.

Leon era um salineiro forte, moreno, alto, uma cabeleira lisa e negra. Adorava viver a noite, apesar de seu trabalho durante o dia na salina, ser um trabalho árduo. Gostava de jogar baralho, tomar uma cerveja e uma cachacinha de vez em quando, não fumava, mas o seu vício maior era gostar de namorar. Para Leon não interessava se era mulher de cabaré, mulher casada, moça donzela. Para ele o importante era ser simplesmente, mulher. Leon era um marido infiel, e não aceitava críticas ao seu comportamento. Ele era homem e podia tudo, não tinha que dar satisfação de sua vida para ninguém e muito menos para sua esposa, pois mulher nasceu para obedecer – assim pensava Leon.

O irresistível Leon saiu do bar e olhou a lua que brilhava linda no céu de Macau. Respirou fundo e caminhou em direção ao Mata Sete, a procura de um companheiro de trabalho para pegar algum dinheiro emprestado, pois o dinheiro que tinha em seu bolso tinha perdido no jogo de baralho, e tinha que levar alguma coisa para agradar a morena Astride, pois estava em dívida com ela. Fazia alguns dias que prometia para a morena que iria lhe ver em sua casa, mas infelizmente os compromissos com as outras amantes faziam com que ele não cumprisse com o prometido para com aquela “morena chocolate”. Leon já pensava no que iria levar como presente e no que ia dizer para amolecer o coração da sua bela amante do Valadão.

Andou em alguns bares do Mata Sete, caminhou sem direção a procura de amigos. Ao passar em frente ao Bar do Cearense ele viu o Armandinho, um dos conferentes da Salina onde trabalhava.

— Boa noite, Armandinho! Como é que está? Se divertindo muito?

— Oi, Leon. Tou bem… Senta um pouco aqui comigo e a Matilde. Toma uma cervejinha com a gente? — pergunta o conferente.

— Não. Obrigado, Armandinho. Eu gostaria de conversar contigo em particular, se possível…

— Beleza, Leon. Fica um pouco ai, viu Matilde? Vou conversar com o Leon e já volto…

Os dois saem do Bar do Cearense conversando animadamente, enquanto a garota ficou aguardando a volta do seu companheiro.

— E aí, o que é que você quer Leon? — pergunta o Armandinho.

— Bem, Armandinho. O negócio é o seguinte: eu tive um probleminha e perdi o dinheiro que eu tinha no jogo, como você sabe… Então apareceu uma garota para eu ir visitar agora, e eu gostaria de levar algo para ela. Como estou sem dinheiro, pensei em pedir emprestado para você que é meu amigo e companheiro de trabalho… Caso não seja nenhum problema para você, é claro.

— E quanto é que tu queres?

— Bem, Armandinho. Se você tiver condições de me emprestar uns Cinco Mil Cruzeiros, eu lhe agradeço muito e prometo lhe pagar no sábado, quando forem feitas as contas na salina.

— Olha aqui, Leon. Eu somente vou poder te emprestar Três Mil Cruzeiros, é só o que eu posso arranjar. E se for para me pagar na hora em que receber o seu dinheiro, lá mesmo na salina… Vai? Serve para você? — pergunta o conferente Armandinho.

— Serve meu amigo. É a velha história… Quem não tem cão, caça com gato…

— E quem não tem cão e nem gato, não caça. Aqui está. E não esqueça… Sábado eu quero receber.

— Obrigado, Armandinho. Valeu mesmo. Você salvou a minha noite. Não se preocupe que eu saberei como retribuir este favor que estás me prestando… Você é um amigo de verdade. — diz o feliz Leon, por ter conseguido o dinheiro para comprar um presentinho para a sua bela Astride.

Os dois amigos se despedem e enquanto o Armandinho volta para o Bar do Cearense, o Irresistível Leon caminha em direção a Rua São Vicente, que era o caminho mais perto para o Valadão, sem passar em frente a sua residência.

Leon ia cantarolando uma música de Silvinho, cantor que estava fazendo o maior sucesso e tocava direto na difusora de Antonio Barreiras. Leon ia traçando sua estratégia de como chegar à casa de Astride e fazer com que ela se sentisse feliz, sem reclamar do adiantado da hora, pois já se aproximava da meia noite.

— “Esta noite eu queria que o mundo acabasse e para o inferno o senhor me mandasse, para acabar com os sofrimentos meus…” — cantava alegremente Leon.

O salineiro irresistível estava contente, pois sabia que ia ter uma noite de amor maravilhosa. Astride era viúva nova, tinha somente trinta e três anos, tinha três filhos pequenos que já deveriam estar dormindo há esta hora. Leon sabia o quanto Astride gostava dele, o quanto gostaria que ele fosse somente dela, e ele por sua vez levava a vida a fazer promessas à bela morena, dizendo que iria se separar da esposa e viveria o resto de sua vida ao lado dela, sendo um marido fiel e dedicado como ela gostaria que ele fosse.

Leon de repente para de cantarolar e fica aspirando um perfume maravilhoso que enche o ar da noite. Olha em direção ao muro do pára-raios, e ver uma silhueta de mulher andando de uma maneira impecável, como se flutuasse e não caminhasse naquele chão de terra.

O instinto de gato caçador de Leon despertou, e ele apressou o passo para alcançar aquela mulher tão perfumada que mexera com os sentimentos do irresistível namorador. Quanto mais Leon apressava o passo, parecia que a mulher andava mais rápido.

Na esquina da Rua São Vicente a mulher parou e ficou escorada em um poste de iluminação pública, como a esperar Leon que já se aproximava demonstrando cansaço e cavalheirismo.

— Boa noite, madame! Que perfume gostoso a senhora tem. É como se Macau inteiro tivesse virado um jardim e todas as rosas se abrissem ao mesmo tempo – disse o galanteador.

— Você é nova aqui? Pois é. Eu conheço todo mundo nessa cidade e principalmente aqueles que vivem na noite, e não lembro de ter visto você antes… Como é mesmo o seu nome? O meu nome é Leon, seu criado. Caso você deseje que eu te acompanhe, terei o maior prazer em levá-la até sua casa ou onde quer que deseje ir – falou Leon com um sorriso encantador nos lábios e com uma voz pausada de conquistador.

— Prazer. O meu nome é Dulcinéia. Eu tenho ouvido falar muito em você e será um prazer que me faça companhia até minha casa – falou aquela mulher com um toque angelical na voz.

Ao ouvir aquela voz que soava em seus ouvidos como um canto mavioso, como se um coral de anjos querubins cantasse somente para ele, Leon ficou embriagado. De repente tudo girou a sua volta e ele não reconhecia mais a rua em que estava caminhando com aquela mulher tão bela e de um perfume tão inebriante.

— Que mulher é essa? Que coisa linda e cheirosa! Ah! Eu não vou mais a procura de Astride, não. Darei um jeito de ficar com esta mulher linda e maravilhosa. Eu não posso desperdiçar uma mulher dessa. Isso é um presente de Deus ou do capeta. Eu não quero nem saber quem mandou, eu vou é aproveitar — ia pensando o irresistível Leon, enquanto caminhava ao lado        da mulher do perfume de rosas.

Ao olhar para o rosto da desconhecida, Leon percebeu que a mesma estava sorrindo, e ele acreditou que era uma forma dela dizer sim, para ele. Aproximou-se cada vez mais, envolvendo a cintura dela com os seus braços fortes de salineiro.

— Onde é que estou indo? É incrível… Acho que as cervejas que eu tomei, estão fazendo efeito. Não estou reconhecendo as ruas por onde passei… Mas o que importa? O que importa para mim é esta dama, e o que eu vou fazer com ela.

Leon procurava conversar com a deusa da noite, mas ela não levava a conversa adiante. Leon passou seu braço direito sobre os ombros dela e ela envolveu a cintura dele com o seu braço esquerdo, e assim caminharam por um bom tempo.

A linda mulher suspira profundamente e olha nos olhos de Leon, que acaricia os cabelos dela, uma cabeleira longa e negra, além de muito sedosa.

— Chegamos Leon!

Leon parou e olhou para aquela mansão de grande portão de ferro e tentou reconhecer o local onde estava. Mas não conseguia ordenar as suas ideias. O pensamento de Leon era somente de fazer amor com aquela mulher misteriosa.

— Bem. Já estás em casa… Eu vou indo… Acredito que as cervejas que eu tomei estão fazendo efeito e eu não quero dá vexame… Desejo uma boa noite, para você — disse Leon, fazendo o seu jogo de palavras e seu charme habitual.

— Não, Leon. Por favor, fique. Eu gostaria que você ficasse… Eu me sinto bem ao seu lado… Você é um homem irresistível e eu queria que você me desse o prazer de tê-lo somente para mim esta noite.

Ao ouvir aquelas palavras pronunciadas de forma tão doce, Leon ficou envaidecido, com o seu ego estourando de tanta felicidade.

— Bem, Dulcinéia… Já que você deseja isso, eu não vou desapontá-la… Ficarei esta noite contigo. Mas, e os seus pais e seus irmãos, o que vão dizer? Será que eles irão criar problemas para você? Olha Meu Anjo… Eu não quero te causar nenhum problema… Se quiser a gente pode se encontrar amanhã e conversaremos. Está certo?

–Não, Leon. Os meus pais e os meus irmãos já estão dormindo o sono dos justos. Ninguém nos perturbará, pode acreditar em mim. Eu te desejo agora… Mas caso você não me queira, eu posso compreender… Olha, esta é a única oportunidade que tens de me conhecer, pois depois de hoje à noite, nunca mais irás me ver…

— Está bem, Dulcinéia. Uma mulher linda como você merece qualquer sacrifício e isto para mim não é um sacrifício e sim, um enorme prazer…

— Então, deixemos de conversa. Vamos entrar, pois já está na minha hora…

Dulcinéia colocou a mão no imenso portão de ferro da entrada da mansão e o mesmo abriu suavemente no mais completo silêncio.

Leon ia caminhando no interior da mansão, completamente surpreso e ao mesmo tempo maravilhado com tanta beleza. A mansão era decorada com imensas cortinas lilás, candelabros de prata com velas iluminavam a sala da mansão, emprestando-lhe um ar romântico. O casal percorreu um corredor imenso ladeado por vários quartos, até chegar ao quarto da dama perfumada.

Dulcinéia abriu a porta de seu quarto, de onde veio de seu interior, um cheiro de incenso indiano.

— Por favor, entre Leon… Sinta-se a vontade! — convidou a dama misteriosa.

— Obrigado, Dulcinha! Com certeza eu me sentirei em casa… Estando ao seu lado, eu ficaria feliz em qualquer lugar do mundo…

Leon ficou observando o quarto imenso de Dulcinéia. A cama era enorme e era coberta com uma colcha de veludo escuro. Logo acima da cabeceira tinha uma foto da moça. Ao lado da cama tinha dois abajures e um vaso com flores que exalavam o mesmo perfume da linda morena. Não tinha janelas, ou estavam ocultas pelas cortinas lilás que enfeitavam o quarto.

De repente Dulcinéia aparece vestindo uma camisola preta transparente, que deixa à mostra as curvas do seu corpo. Os seios fartos e rijos completam o quadro de sedução. Leon olha para a mulher como se visse a mais bela das deusas do Olimpo grego.

— Não acredito no que eu estou vendo… Você existe mesmo ou é um delírio meu? Você é linda… Fantástica… Não tenho palavras para descrever tanta beleza em você…

— Fique calado… Eu quero apenas que você me ame, Leon!

— Seu pedido é uma ordem, minha rainha!

— Então vem, Leon… Estou em brasa… Eu te quero e se fores tão gostoso quanto falam por aí, tu serás para sempre meu… Não te deixarei nunca mais, meu garanhão irresistível.

Leon não perdeu tempo, se despiu rapidamente jogando sua roupa de qualquer jeito pelo chão do quarto. Abraçou Dulcinéia e puxou-a para cima da cama e a cobriu de beijos e carinhos inimagináveis.

— Oh, Leon… Meu leão faminto… Meu gostoso, você é tudo aquilo que falam e muito mais… Quero que você seja meu para sempre — sussurrava entre suspiros a linda morena perfumada.

— Oh, Dulcinéia… Meu doce… Você é a mulher mais gostosa que eu já levei para a cama… Sim, meu amor… Eu serei seu para sempre — dizia o extasiado e irresistível Leon.

Leon e Dulcinéia fizeram amor várias vezes, até que os seus desejos bestiais fossem saciados e acabassem dormindo abraçados como dois  lindos e eternos amantes.

Um calor tomou conta do corpo de Leon e a claridade bateu em seus olhos ainda sonolentos. Passou a mão em volta, sobre a cama, a procura de Dulcinéia e resmungou baixinho:

— Dulcinéia, meu amor… Fecha estas cortinas… Ainda sinto sono.

Uma sacudida em seu corpo e uma voz masculina falando em voz alta, chamando o seu nome, fez Leon voltar à realidade.

— Leon… Leon… Leon! Acorda homem. Que diabo tu pensas que está fazendo, homem. Pelo amor de Deus, homem… Veste a tua roupa.

Leon levantou a cabeça e viu que o homem que estava lhe chamando era o coveiro do cemitério, o Seu Arlindo.

— O que é que foi, Arlindo? O mundo está pegando fogo ou é um incêndio no mar?

— Nem uma coisa, nem outra, Leon… Eu só quero que você me explique como foi que você entrou no cemitério durante a noite e pra que… E o que você está fazendo deitado totalmente despido em cima de um túmulo e suas roupas espalhadas pelo chão… Você tem alguma explicação para me dar?

Leon olhou a sua volta e viu que estava totalmente nu em cima de um túmulo de mármore negro e suas roupas estavam jogadas no chão do cemitério. Ele despertou totalmente e olhou a sua volta e viu no túmulo a foto de Dulcinéia, ao lado um vaso com flores e dois candelabros de louça com restos de velas, que tinha, sido acesas recentemente. O cheiro de velas ainda impregnava o ar do cemitério.

O galanteador irresistível olhou para a foto de morena que tinha perfume de rosas e a reconheceu. Logo abaixo da fotografia estava o nome dela: Dulcinéia do Amaral Pereira Góes, nascida em 13 de Maio de 1910 e falecida em 31 de Março de 1943. Leon ficou pensativo e lembrou-se que a data daquele dia era 31 de Março de 1964, uma Sexta Feira Santa e que aquela morena perfumada só tinha trinta e três anos quando morrera, por coincidência a mesma idade de sua bela amante morena do Valadão, a Astride.

De repente, o irresistível moreno conquistador arregalou os olhos e deu um suspiro que mais parecia um urro, levou as mãos ao peito esquerdo e começou a se contorcer sobre a campa de mármore negro de sua perfumada Dulcinéia. Leon parou de se contorcer e ficou com os olhos fitos no céu azul e sem nenhuma nuvem de Macau.

 

— Leon! Oh! Leon. Pelo amor de Deus, homem… Acorde! Vista a sua roupa, que está chegando gente no cemitério, homem… Oh! Leon. Pelo amor de Deus e de todos os santos, acorde! — gritava desesperado o pobre do coveiro.

Mas, Leon não acordou nunca mais. Leon pela primeira vez cumprira uma promessa feita a uma de suas amantes e iria ficar para sempre com a doce e perfumada Dulcinéia, pois afinal de contas, ele era Leon, o bom de cama… O gostosão… O irresistível salineiro Leon.

 

 

 

 

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