Uma poesia. Benito Barros

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Antes de sermos sereno

Vem, navega por todas as veredas do meu corpo

até se perder nas entranhas mais profundas.

Vem, desliza afoito

no voraz mar que me envolve

e, quanto submerso,

nos recônditos abissais

faze refulgir o berço do prazer

para retardar o ocaso que se avizinha.

 

Desencontro, por Cagê

 

Vem, enquanto há trilhas a serem caminhadas

e mar a navegar.

Vem, enquanto for possível se perder

e naufragar.

Vem, enquanto me guardo sedento.

 

Apressa-te!

 

Depois,

Seremos apenas relento.

Da imaginação estrumada de angústia

florescem esquisitices.

 

 

“Ah, se a morte chegasse!

como a água da bica

– lentamente, suavemente –

a encher a cisterna.”

 

Meu caro, não vês a cisterna meã?

 

“Ah, se morte viesse!

como os pingos da chuva

– abrupta, intermitente –

a molhar o telhado.”

 

Meu caro, não vês o telhado úmido?

 

Ora, ora, ora…

o que temes,

o que ainda esperas da vida?

Para que esperar?

Por que não dar logo a partida?

Adianta, pois,

se coragem não faltar,

teu projeto suicida.

Se achas, porém, que foste um homem bom

e que alguém chorará tua ausência,

desiste!

Aos bons não é dado dirigir o próprio destino.

Angústia, por Cagê

Adia um pouco se duvidas,

por força de muita indignidade

que até hoje evitaste cometer,

que – em vida – causaste dor, muito dor

somente dor.

De que vale decidir morrer

sem a convicção de termos sido real e cruamente

–  pusilânimes, perversos –

homens?

 

Mas aí a vida se mostrará rica e generosa

e já não quererás mais morrer.

 

“Que dilema!

Aos bons não se permite comandar a vida

e aos maus a vida é suficiente boa,

que fazer?”

 

Se queres um conselho inútil:

esquece!

Se queres um opinião proveitosa:

mata-te!

 

Réquiem para o infinito, p. 77/80, Benito Barros, Imperial Casa Editora da Casqueira, Macau, 2002.

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