Guamaré e história: o livro de Maria Jandir Candéas

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Foto Claudio Guerra, 1982, Salina da Cruz em Guamaré, arq. O baú de Macau

Havia agendado a compra do livro, Guamaré Ontem e Hoje – Apontamentos para sua História, de Maria Jandir Candéas, que trata da região salineira e antes de adquiri-lo recebi graciosamente do meu cunhado e amigo Laércio Bezerra, Promotor de Justiça por vários anos em Macau.  Na primeira leitura um fato me chamou atenção, a preocupação de Maria Jandir em demonstrar que Guamaré tem sua história secular assentada na produção salineira e não é um município surgido com a exploração do petróleo, como fica parecendo para aqueles que não conhecem a região.  O que Maria Jandir fez é fundamental para que não matemos nossas raízes culturais, sempre ameaçada por homens e empresas que não respeitam os autóctones e buscam deformar a história para dominar a região.

Vamos aos exemplos. Busco no escritor Eduardo Galeano um que sempre uso quando me refiro à deformação histórica. Diz Galeano que no Japão, os estudantes japoneses pensam que foram os russos que jogaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e não os americanos. A imprensa japonesa, dominada pelos americanos  limpou ao longo das décadas a maldade que fizeram com o povo japonês.

O segundo exemplo é daqui do Rio Grande do Norte. É o caso dos mártires. Veja bem, eu não sou contra os mártires e penso que toda religião deve cultuar os que deram suas vidas pela fé, o que não concordo é que joguem a culpa nos indígenas – tapuias e potiguares – moradores primitivos da região e que foram dizimados pelos portugueses.  E também não concordo com o anátema lançado sobre Jacó Rabbi. Rabbi foi o único e verdadeiro amigo que os indígenas tiveram em todo o período da sangrenta invasão europeia no Rio Grande do Norte. A história registra, mas grande parte dos historiadores omite.

O terceiro, mais recente, trata-se de Globo Mar exibido em abril de 2011. Fizeram uma extensa reportagem sobre a produção do sal, Mossoró, Areia Branca, Porto ilha e até Galinhos que possui pequena área de salinas. Ficou de fora Macau, região das maiores salinas do Brasil e Guamaré, região essencialmente salineira. Coisas da Rede Globo. Enfim, deformaram a história da região.  Por me considerar de Macau, macauense por adoção, ao assistir o programa, me chateei.  Depois, pensei. Um programa que encerra com pagode e churrasco num Porto-ilha, lugar de trabalho penoso e perigoso não pode ser um programa sério. E me conformei.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.