Cândido Portinari e as carnaúbas

Cândido Portinari, Carnaúba, afresco, 1944

A série Ciclos Econômicos são murais pintados por Cândido Portinari no Palácio Augusto Capanema, antiga sede do Ministério da Educação e Cultura no Rio, com temática dos nossos produtos primários e sob encomenda do Estado Novo, ditadura Vargas.  Houve quem viu nisso o enaltecimento da ditadura e até que “carrega o peso do nacionalismo fascista do Estado Novo”. O afresco Carnaúba é de 1944 e por mais que o analise, não vejo o enaltecimento do Estado Novo nesta obra de arte. Vejo sim, trabalhadores e carnaúbas, a belíssima palmeira que produz cera, que foi uma grande riqueza e hoje não é mais, cujo trabalho do corte da palha e cozimento do pó é primitivo e penoso, mais enfim, uma bela palmeira dos vales do sertão  nordestino, uma palmeira das caatingas. Foram elas que me deram as boas vindas em 1981 quando entrei a primeira vez na estrada do vale do Assu em direção a Macau.

Foto Claudio Guerra, 1982, carnaúbas no Vale do Assu; arq. O baú de Macau

De Cândido Portinari guardo com carinho o que ele declarou em 1945:   “Confesso que foi grande a minha emoção ao saber da inclusão do meu nome na chapa do Partido Comunista. Se não se tratasse desse partido, de maneira nenhuma aceitaria. Você compreende, não tenho jeito para deputado, mas pertenço ao povo, com todos os seus defeitos e qualidades, por isso lutarei pelo partido do povo (…) Resolvi aceitar a inclusão do meu nome porque considero o Partido Comunista como a única grande muralha contra o fascismo e a reação, que tentam sobrenadar ao dilúvio a que foram arrastados pelos acontecimentos. É preciso haver uma mudança, o homem merece uma existência mais digna. Minha arma é a pintura”.

De Claudio Guerra para o baú de Macau