Nísia Floresta: uma mulher à frente de seu tempo

Nísia Floresta: uma mulher à frente de seu tempo [*] 

Escrever sobre Nísia Floresta é antes de tudo um canto de amor à mulher, à educadora e à escritora que apesar de viver numa sociedade de cunho machista, excludente, em que os espaços sociais do homem e da mulher eram assim demarcados: o homem protagonista da cena social, o provedor e a mulher, coadjuvante, a procriadora, o “querubim do lar”.

 

É nesse cenário que Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, nascida em 1810 no Rio Grande do Norte, quebrou o “script” esperado para a mulher e passa a ser a protagonista de uma nova história: a história de uma mulher que pensa, que escreve, que trabalha fora de casa, que dirige um colégio para moças e escreve diversos livros com o objetivo de defender os direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.

 

Rompendo os limites do espaço privado destinado à mulher, a escritora Nísia Floresta publica textos em jornais da chamada grande imprensa numa diversidade de gênero que vão desde crônicas e ensaios a contos e poesias. Sua modernidade reside no fato de sua constante presença na imprensa nacional comentando as questões polêmicas da época.

 

Incompreendida em sua terra natal foi desprezada, difamada e relegada ao esquecimento por seus conterrâneos. O fato de estar à frente de seu tempo custou-lhe o não reconhecimento de seu talento e a exclusão de seu nome como escritora romântica na história da literatura brasileira, bem como o total desconhecimento da educadora que foi na história da educação feminina no Brasil.

 

A leitura de sua obra possibilita o reconhecimento das diversas vertentes de militância da autora e, ao mesmo tempo, permite observar o propósito de tais escritos, ou seja, mudanças na ideologia vigente no que concerne ao comportamento das mulheres e conseqüentemente dos homens.

 

Seu primeiro livro intitulado “Direito das mulheres e injustiça dos homens” tem como temática os direitos das mulheres à instrução e ao trabalho e a exigência de se considerar as mulheres como seres inteligentes e merecedores de respeito pela sociedade. Foi publicado em Recife no ano de 1832 quando a autora tinha apenas 22 anos. Esse livro dá à autora o título de precursora do feminismo no país.

 

Em 1832, Nísia Floresta questiona o fato de não haver, no Brasil, mulheres ocupando cargos de comando tais como de general, almirante, ministro de estado e outras chefias, bem como a ausência de mulheres nas cátedras universitárias, no exercício da medicina, da magistratura ou da advocacia já que estas possuem a mesma capacidade intelectual que os homens. Desse modo a escritora acende o debate e pretende acabar as eternas verdades das elites patriarcas brasileiras.

 

Nísia também foi precursora no tratamento dado aos índios na literatura brasileira. No poema “A lágrima de um Caeté” (1849) além de se perceber elementos dominantes do romantismo brasileiro como a lusofobia, o elogio da natureza e a exaltação de valores indígenas, o poema é inovador quando ao invés de fornecer a visão do índio/herói que luta, o índio retratado pela autora é apresentado do ponto de vista dos derrotados, do índio vencido consciente e inconformado com a opressão de sua raça pelo colonizador, ou melhor, pelo invasor branco. Na poesia citada, o discurso poético da narradora acrescenta um dado fundamental na relação branco/ índio, isto é, a perda da identidade por parte do indígena, discurso este escamoteado pelos outros escritores românticos nacionais.

 

Após a publicação do poema supracitado, a autora viaja para a Europa onde permanece vinte e oito anos de sua vida. Nesse período, quando se encontra no auge de sua maturidade intelectual, Nísia relaciona-se com grandes escritores dentre os quais: Alexandre Herculano, Dumas, Lamartine, Victor Hugo, George Sand e Augusto Comte. Viaja anos seguidos pela Itália, Portugal, Alemanha, Bélgica, Grécia, França e Inglaterra. Dessas viagens resultaram alguns livros que contém suas impressões dos lugares que ia conhecendo. Entretanto, Nísia não se limita a meros relatos de viagem, mas descreve com riqueza de detalhes as cidades, as igrejas, os parques, os museus, as bibliotecas e monumentos, dando especial atenção aos tipos humanos numa linguagem prenhe de erudição e sensibilidade. Dentre os quais estão “Itinerário de uma viagem à Alemanha (1857)”, “Três anos na Itália” e “Viagem à Grécia” (1864 e 1872).

 

Saudosa da pátria escreve um ensaio intitulado Brasil (1871) publicado em Paris. Nesse ensaio, a escritora resume a história do país, fala de seus recursos econômicos, das riquezas conhecidas, dos intelectuais e escritores mais conhecidos. Seu objetivo era, além de fazer propaganda da pátria no estrangeiro, desfazer os preconceitos e mentiras que circulavam na Europa sobre o Brasil.

 

Nísia Floresta era uma das raras mulheres de letras de seu tempo. Por isso merece ser lembrada como uma brasileira que fez de sua ilustração e de sua erudição armas para militar por causas que julgava justas e necessárias ao país. Mulher que deve ser lembrada também como aquela que viveu à frente de seu tempo.

 

[*] Redação vencedora do concurso estadual promovido pelo Diário de Natal – Projeto LER/Educação e Companhia TerrAmar e vencedora do 12º Prêmio Nacional da Fundação Assis Chateaubriand e Correio Brasiliense em parceria com a Fundação Banco do Brasil, Petrobrás e Ministério da Cultura para alunos do ensino médio.