Marcel Jules Thieblot

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Obra: Os Homens do Sal no Brasil; autor: Marcel Jules Thiéblot;  SCCT, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, São Paulo, 1979, Coleção Folclore nº 16; p. 72 a 74.

“Macau: O segundo ponto de observação foi Macau. Macau! O nome soava no meu ouvido como um encanto de praias brancas de sal. Sabia que Macau produz a metade do sal de todo o Rio Grande do Norte: mais de 110.000 toneladas; […]

Em 12 de novembro de 1936, “A República” de Natal fala da ‘elegância e da nobreza de Macau, hospitaleira e progressista, em contato direto com o Rio e outras capitais do sul, devido ao intenso comércio do sal das suas imensas e belas salinas’. [1] Macau chegou a possuir o seu teatro Guarani!

Descendo do ônibus, após uma viagem por caminho de terra, vi que eu estava bastante enganado. Do sal, só se vê o monumento ao salineiro, isto é, uma praça que representa em miniatura uma salina e seus chocadores e baldes, as rumas de sal e os serrotes de cimento pintados de branco.  Macau … é uma cidade parada, à beira do Rio Açu, cheio de lodo à maré baixa, sem praia, com velhos casarões coloniais desmoronando.

O bairro do Porto é caracterizado por suas casas de taipa, com telhados de telhas redondas muito baixos, apertados uns contra os outros. […] O bairro está sem água, como o resto da cidade. Macau não tem água. Antigamente tinha um poço de água doce; mas um dono de salina, um dia, comprou da Prefeitura uma área vizinha da aglomeração para ampliar seus reservatórios. Conseqüência: o lençol de água ficou contaminado pelo sal e impróprio ao consumo. Agora a água chega de caminhões e a prefeitura vende a água. O dia todo, mais de manhã sobretudo, homens e rapazes vão e vêm pelas ruas, apressados e encurvados, carregando no ombro o calão d´água para casa: são duas latas de querosene penduradas de um pau atravessado no ombro. ‘Areia Branca e Macau está tudo morto’, me disse um velho salineiro. Teatro, não tem mais. Em compensação, há um museu: o Museu José Elviro. O proprietário é João de Aquino da Silva […]  João, desde 1935, […] coleciona objetos, pedras, livros, manuscritos. Trabalhou como salineiro, depois como encarregado na parte de carpintaria e calafeto, na salina. Mas sempre continuou a colecionar e hoje tem três mil e tantas peças. Como é que esse homem, de chinelas nos pés e sempre pobre, conseguiu adquirir tanta sabedoria e um conceito tão certo do que é cultura espontânea? Se esse homem que, depois de duas horas de conversa, me tratava de irmão, o que não diria ao nosso mestre Rossini Tavares de Lima! São da mesma veia, lutando pela mesma causa. Nesse museu, os historiadores verão o sino da igreja submersa da Ilha Manoel Gonçalves. Quantas peças que dariam inveja ao nosso museu de folclore de São Paulo! João, três anos atrás, foi preso pelo delegado; chamado de palhaço e louco foi amarrado num poste na rua. O grande galpão de 10 por 30 que abriga esse acervo cultural foi lhe emprestado – ironia da história! – pela companhia holandesa que explora o sal de Macau! O dono do CIRNE será o único a reconhecer o valor do trabalho de João? Quem for a Macau não deixe de passar pelo museu José Elviro e de conversar com João de Aquino. Porém não tente tirar fotografia dele nem ligar o gravador que ele ficaria bravo!”

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