Há Claudio Guerra e Cláudio Guerra como há civilização ou barbárie

 

capa do livro:Luta, Substantivo feminino

Despertei para o problema na última quinta quando me ligaram de Macau dizendo que estavam comentando o meu livro num canal de TV. Fui conferir e não era. Tratava-se do livro  Memórias de uma guerra suja dos jornalistas Marcelo Neto e Rogério Medeiros com base no depoimento do ex-delegado do DOPS Claudio Guerra. Desde a década de 70 que eu sabia da existência desse delegado acusado de torturas no Espírito Santo. Por essa época eu militava no interior de São Paulo nos grupos que lutavam pela democracia. Agora, pensei em escrever alguma coisa a respeito, mas eis que recebo este texto do Marcos Dionísio que fala sobre o assunto. Emocionado, publico a bela crônica de Marcos Dionísio, enorme contribuição para a necessidade da Comissão da Verdade . De Claudio Guerra para o baú de Macau.

Há Claudio Guerra e Cláudio Guerra como há civilização ou barbárie

[*] Marcos Dionísio Medeiros Caldas

Nesta semana tomamos conhecimento de um livro chamado Memórias de uma Guerra Suja, livro reportagem dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, a partir de depoimentos de um Torturador ‘em busca de paz’, chamado Claudio Guerra.  Pelos relatos, o livro mexe fundo em feridas e ao invés de trazer as esperadas luzes, coloca a história novamente no breu ao ‘informar’ de que os corpos foram incinerados, arrefecendo mais uma ténue esperança de que teríamos efetivas notícias dos desaparecidos e mortos da ditadura.  O livro deverá ter um retumbante sucesso editorial a julgar pelo furor que causou no espaço digital.  Antes porém de ler o depoimento do seboso Cláudio Guerra, Delegado de Polícia Civil aposentado e Capixaba, precisamos fazer jus a um outro Claudio Guerra, boníssima figura potiguar, amante das letras que, com rara habilidade de traçar perfis, conta histórias e reconstrói o espaço existencial e geográfico de Natal, do RN, RJ e PE de ontem, do período das trevas. Ler o Cláudio Guerra potiguar, é mister  Em ‘MARINHEIRO SÓ”, narra a luta de José Manoel e sua Gení. Recuperando-me de uma cirurgia de catarata li numa ‘tirada’ só esse “Marinheiro Só″ que tive a honra de receber por sua iniciativa, pelas mãos cuidadosas de Mery Medeiros.  Cláudio Guerra em “Marinheiro Só″, resgata a jornada de lutas de José Manoel, na ascendente caminhada do nosso povo pelas Reformas de Base e pela quebra do militarismo que sufocava os marinheiros, às vésperas do Golpe de 01 de Abril.  Conta os heroicos tempos de resistência bravia no enfrentamento do que sobrou do ‘movimento’ contra o Regime Militar.  Faz um apurado desfile aos nossos olhos das assembleias dos marinheiros no Rio de Janeiro. Identifica heróis de carne e osso e cliva com precisão a identificação de vilões e traíras, igualmente de carne e osso.  Indo além da obra histórica, nosso Claudio Guerra resgata o humanismo de cada militante, recria e nos mostra uma Natal e uma poética Recife que já não existe mais a não ser na lembrança de retinas cansadas e com um cuidado e zelo de gênero, enaltece a valentia da Gení ao lado do companheiro na sua convivência e posteriormente na sua solitária , empedernida e perseverante luta para identificar o corpo do seu lutador e de lhe dá um jazigo ainda negado a tantos brasileiros.  “Marinheiro só″ saiu pela O baú de Macau – Editora e Artes, 2011, um sonho virando letras do nosso Cláudio Guerra.  Cláudio Guerra, o nosso, resgata perfis  humanos dos combatentes da Ditadura e seus loucos sonhos por justiça e liberdade, faz da Baú um atalho para a cultura e o resgate emocional e histórico.  Enquanto o outro Guerra não trás a paz que ele quer para si, o nosso dá sua contribuição na construção de uma sociedade humana, fraterna e impregnada da cultura de paz.  Enquanto outro assassinava , o nosso cria por sua caminhada e suas letras o necessário encantamento em busca do império dos direitos humanos e da felicidade para o povo de Macau, Natal e do mundo. Há Claudio Guerra  e Cláudio Guerra, como existem as opções da Civilização ou Barbárie. Viva a terra de Poti, Viva o nosso Cláudio Guerra, viva Gení, viva José Manoel, viva o baú de Macau.

[*] Marcos Dionísio Medeiros Caldas,  é advogado e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos e Cidadania no Rio Grande do Norte.