Aurora trucidada

Obra: Aurora Trucidada [poemas]; Autor: Fagundes de Menezes [1922/2000]; Edições Clima vol. 43, Natal, 1985, capa de Marcelo Mariz, com ilustrações de Dorian Gray.  Editoria de Carlos Lima que abre o livro com a biografia do autor.

A obsessão do mar  [Aurora Trucidada, p.7/9]

FAGUNDES DE MENEZES [João Fagundes de Menezes] nasceu em Macau, no Rio Grande do Norte, cidade em que, no Grupo Escolar Duque de Caxias, fez o curso primário. O ginasial e o curso pré-jurídico foram feitos no Ginásio Oswaldo Cruz, do Recife, em cuja Faculdade de Direito ele estudou por três anos. Depois transferiu-se para a então Faculdade Nacional de Direito [hoje Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro], onde se bacharelou em Ciências Jurídicas e Sociais. Fagundes de Menezes exerceu o magistério secundário, o jornalismo e a advocacia na capital pernambucana durante alguns anos. Fixado no Rio, definitivamente, desde 1950, trabalhou na Redação de vários dos principais jornais cariocas, tendo exercido, em quase todos eles, cargos de chefia. Foi diretor de Redação do Correio do Povo, do Recife; Secretário de Redação do Diário de Notícias, do Rio;  Secretário de Redação e Secretário gráfico do Jornal do Brasil; Redator e repórter especial da  Última Hora, do Rio, e diretor de Redação da edição fluminense desse jornal;  secretário de Redação e chefe da Seção de Cinema da Agência Nacional [hoje Empresa Brasileira de Notícias]; repórter e cronista parlamentar da Folha de São Paulo, quando o Congresso Nacional ainda funcionava no Rio, então Distrito Federal e capital da República; Secretário-Geral da Campanha Nacional do Livro, órgão do Instituto Nacional do Livro; diretor da Radio Nacional do Rio de Janeiro no Governo João Goulart; fundador e diretor [juntamente com Djalma Maranhão, o grande prefeito de Natal que morreu no exílio, vítimas das perseguições  do regime instalado no País pela força, a 1º de abril de 1964, Eliseu Lima, jovem jornalista cearense, e Joaquim Fagundes de Menezes, irmão do autor deste livro] de dois jornais em sua cidade, Macau: A Gazeta e Expressão, este último tendo sua circulação proibida pela Polícia do Estado Novo. Fagundes de Menezes colaborou nos seguintes jornais, desde muito jovem: A República e Diário de Natal; Diário da Manhã, Diário de Pernambuco e Jornal do Commércio, do Recife, Jornal da Manhã e Jornal do Commércio do Rio de Janeiro. Foi ainda colaborador das revistas Manchete, O Cruzeiro e Revista do Livro, este, órgão do Instituto Nacional do Livro. Mas o que ele sempre deseja destacar é o fato de haver, quase menino, se iniciado no jornalismo através d’O Debate, de Natal, dirigido pelo Jornalista Antônio Alves, falecido há anos e que se constituiu num desses heroicos homens de imprensa de Província. Pertence Fagundes de Menezes à União Brasileira de Escritores, da qual é presidente, tendo sido reeleito duas vezes; ao Pen Clube do Brasil, de que é sócio-titular; à Federação das Sociedades de Escritores Latino-Americanos, de cujo Conselho Consultivo é membro; ao Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro; ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e à Associação Brasileira de Imprensa. Tem participado de várias comissões julgadoras de prêmios literários, inclusive recebendo frequentes convites para palestras e conferências, em associações culturais e Universidades. Deverá estrear como autor de obras de literatura-infantil com coletânea de contos Vaga-lume… lume… lume.  O mar é uma constante na obra de Fagundes de Menezes, seja na prosa, seja na poesia. Existe, da parte do autor, uma obsessão pelo mar. Este livro, porém, sem deixar de ter ressonância ou conotações talássicas, possui mais um conteúdo de participação política. O autor, sem cair na linguagem panfletária, apresenta uma poesia engajada, de protesto contra a grande noite ditatorial que se abateu sobre o País desde 1º de abril de1964.

 

Fagundes de Menezes [Um Rio Grande e Natal, de Getúlio Moura, p. 315/316]

Fagundes de Menezes – Nasceu em Macau, em 28 de janeiro de 1918. Iniciou o curso de Direito em Recife e concluiu no Rio de Janeiro. Foi advogado, jornalista, contista e poeta. Iniciou no jornalismo aos 16 anos, escrevendo artigos políticos nos jornais de Natal. Fagundes passava as férias em Macau e aqui publicava um jornal semanal, somente nos períodos de férias, em parceria  com Djalma Maranhão. Esse jornal terminou sendo proibido pela polícia. Quando lançou seu primeiro livro em 1960, Fagundes já escrevia, há tempo, em jornais de Natal, Recife  e Rio de Janeiro. No Rio ele trabalhou como cronista e repórter parlamentar e ainda mantinha uma seção num grande jornal de São Paulo, aos domingos. Na década de 1980, Fagundes de Menezes foi presidente da União Brasileira de Escritores e Membro do Conselho Consultivo da Federação de Escritores Latino-Americanos.  Os seus livros são: Nietzsche e a Mística do Super-Homem, O Vale dos Cataventos [1960], Os Enteados de Deus [1969], O Vagonauta [1973], Território Livre [1975], Cárcere das Águas [1983], A Dissipação da Aurora [1984]. Neste último livro, Fagundes de Menezes anunciou os livros que tinha a publicar: eram cinco. Entre eles estava Alagamar, um romance que, infelizmente não chegou a ser publicado [e não há notícia se foi concluído]. Fagundes de Menezes morreu em 08 de fevereiro de 2000, fato noticiado numa página inteira do jornal Diário de Natal.

 

 

Proclamação [Aurora Trucidada, p. 17/19]

Aurora trucidada p. 21 Dorian Gray

Quero-te verso

espada e foice

espinho e dardo

forja e escalpelo

enquanto é noite

sem esperança

De alvorecer.

 

Quero-te verso

terso inquebrável

árduo inclemente

hostil agreste

áspero armíssono

zagaia carda

clava e azorrague

enquanto formos

contemporâneos

de eras antófobas.

 

Quero-te verso

áspide e assédio

libelo e açoite

couraça e látego

armipotente

feroz e rude

constrangedor

enquanto os mares

forem lagoas.

 

Quero-te verso

ácido e tosco

elmo e catana

bruto e clamante

equinocarpo

desamorável

belipotente

devorador

enquanto as bocas

tenham mordaças.

 

Quero-te verso

exautorante

atroador

ódio e escarmento

escarcerante

galvanizante

obstinado

enquanto houver

medo e terror

Quero-te verso

adaga e adarga

lâmina e alfanje

paiol veneno

ebulição.

 

Quero-te verso

aliciante

fero viril

enquanto os corpos

forem autômatos.

 

Quero-te verso

rocha e acicate

malho e martelo

duro estilete

punhal e garras

enquanto houver

sombras nos túneis.

 

Quero-te verso

cáustico impávido

aljava e flecha

e ao mesmo tempo

semente e adubo

unção e prece

conclamação

chamado e toque

de reunir

de todos quantos

não se abateram

nem se dobraram

e ainda crêem

no alvorecer.

Mais poesias:

A morte