Das varandas da Maré-Mansa no delta ensolarado de Macau a poesia em prosa de Fátima

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Trigal com corvos, Vincent van Gogh 1853-1890

Um bom texto nos ajuda tecer.  Este de Fátima Marcolino me remeteu ao filme Sonhos de Arika Kurosawa. São oito episódios das coisas humanas e uma delas, a arte.  No filme, um personagem encantado com a luz do sol, entra na tela “Trigal com corvos”, de Van Gogh. O que é arte e o que é realidade? Eis a questão. Fátima ao se ver nesta encruzilhada, pode dizer como o personagem de Kurosawa,  “vi um sonho assim”.    

Apreciação                 [*] Fátima Marcolino

Foto Getulio Moura, 2009, das varandas da Maré Mansa, arq. Getulio Moura

De cor de rosa tem um céu junto do azul céu que um pintor maluco desenhou na sua tela. Parece um quadro desses que a gente olha e fica parado apreciando e pensando como tem essa coisa tão bonita que não se pode traduzir, mas alguém pega um pedacinho dessa imensidão e coloca numa tela para a gente apreciar. Fico parado ali, olhando e entro na paisagem para fazer parte daquele encantamento. Viajo para o centro da tela e lá dentro não tenho a mesma visão do lado de fora. Sou pequeno e pareço Alice quando engoliu a pílula diminuta. Aqui dentro não tem a menor graça em ver a tela. Não passa de pinceladas grosseiras de uma tinta dura e mal acabada. Fico desanimado e quero sair. O pintor esqueceu uma minúscula brecha na tinta e já posso pular do mundo irreal para fora da tela.  – Ufa! Que alívio!  Saio para o mundo de gente grande e posso usar minha visão para apreciar de perto a obra do artista. Ele parece distraído com a pintura e nem percebe o que aconteceu comigo. Ainda de aquarela e pincel na mão, fixa o olhar para o centro da tela de onde eu me perdi em pinceladas. Acho que ele está buscando inspiração nas cores. Assim como eu, também inconformado com o que já está feito, aguardo ansioso o resultado dos seus pensamentos e ensaio um bocejo de cansaço. Ele fica alguns minutos olhando a paisagem para começar a esboçar alguns pássaros brincando e pescando à beira mar. Gaivotas que sobem e descem num voo rasante subindo com pequenos peixes no bico, comendo em pleno ar. Fica feliz motivado pela luz que irradia da paisagem. É quase noite. Ele precisa fechar a tela. Ainda falta um pouco da vegetação, mas ele não desiste. Recomeça no verde escuro do manguezal. Ali já tem os barcos. Pequenas canoas com alguns donos, fiéis pescadores zelosos dos seus instrumentos de fazer chegar à mesa o pão, a farinha e o feijão. Ele pinta o mangue, a maré, os homens, os barcos, céu cor de rosa e azul com sol vermelho se esvaindo, vai sumindo, ficando pequenininho, mas estou ali, observando nesse ateliê natural, o pintor e a sua arte.

Macau [RN], 13 de maio de 2011.

[*] Fátima Marcolino, é macauense e graduada em Letras pela UFRN.

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