Um conto de Clauder Arcanjo

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Zé Clito, o pastorador     [*] Clauder Arcanjo 

Todo final de tarde, a cena. De bermuda puída, de pé no chão, com o chapéu de palha gasto; em passadas cambiantes, ele se achegava. Zé Clito, o pastorador.  Ninguém sabia bem quando tudo começara. Diziam que lá se foram quarenta anos. Difícil de afirmar, o tempo não corria em anos naquele fim de mundo.  Dona Guiomar, espécie de madrinha da vila, fornecedora da sopa do começo da noite, se lembrava que, nas dores do primeiro parto, a vila já contava com a guarda de Zé Clito. “Minha Maria do Carmo já tem até filha casada, minha gente!”

Licânia publicado em 2007 pela Sarau de Letras.

 Seu Tadeu das Cocadas, entre um fungado e outro, cofiava o bigode ralo, e punha semente de dúvidas na fogueira da memória do povo da Vila dos Borregos. “Sei não; o pastorador aparentava ser mais velho. Na época do crime do beco — vixe, Maria!, nem é bom lembrar —, fora quem dera a pista do assassino. Lembram?”  Cotinha da Gertrudes escutava tudo, no entanto imaginava-o mais moço. “Carnes duras, olhos tão azuis e brilhantes, não tinha rompido a barreira dos trinta!”

 “Silêncio. Zé Clito está chegando.” Era Matilde das Bolachas a pedir respeito pela chegada do vigia da vila.  “Boas tardes, Zé Clito!” “Rumm…”— Resmungo curto, seguido por uma saudação a todos. Com o chapéu na mão, cabisbaixo.   

Tomara a sopa de Dona Guiomar, fizera afagos no cachorro Tubarão, assobiara para os canários da terra, que lhe responderam, como de costume, em trinado de briga. E, quando o sol sumia na barra, saiu. Para o seu posto: uma pedra grande, embaixo de um pau-branco, bem no cocuruto do Morro dos Preás. Na última volta da estrada, antes de qualquer viajante dar pelas casas.  Aquela noite foi mais escura do que as outras. “Vem chuva, meu povo!”; anunciou o Chico das Nêgas, metido a adivinho do tempo. “Cê tá louco, Chico!? Tamo em agosto, cabra véi!”; disparou João das Palhas.

Uma ventania esquisita mexeu com as roupas, buliu com as galinhas, assanhou os pesadelos dos meninos, apagou lamparinas e… pôs todo mundo para dentro das redes. Cedo, muito cedo.  Na madrugada, ninguém visitou a cama da Raimundinha Pelanca. Desafogo da rapaziada, mancebio dos velhos abandonados.  Quando Raimundinha, cansada de esperar pelos amantes, saiu para o alpendre para recolher seus troços… “Um grito. Zé Clito?!…”  Caiu em alvoroço. Entrou em casa, trocou de roupa e… feito doida, a bradar no meio dos becos do vilarejo. “Chega, gente, um grito pras bandas do pastorador. Vamos, homens, acudam Zé Clito. Sinto que ele está em perigo.”  As mulheres seguraram seus homens, achando que era artimanha da cunhã. “Fique quieto, seu besta. Nem seja doido de atender a esta mulher da vida. Pouca vergonha!”  Quando se apercebeu que nenhuma lamparina se acenderia no interior das casas, Raimundinha Pelanca armou-se de coragem, e disparou para o Morro dos Preás. — Zé Clito, homem de Deus!   A facada atingira-o na altura do peito. O sangue quente, olhos vivos.   — Ai!… E Dona Guiomar, seu Tadeu das Cocadas, Cotinha da Gertrudes… Ai!, e Matilde das Bolachas, o cachorro Tu…barão, os canários… Chico das Nêgas, João das Palhas… Ai!; como estão? Era o… assassino, veio… acertar con… 

— Estão todos… bem, Zé Clito.  — Me chame de… Pas-to-ra-dor, Dona Rai…  

[*] Clauder Arcanjo é escritor autor de Licânia, entre outras obras [clauderarcanjo@gmail.com]