Os encalhes dos navios

Eram frequentes os encalhes dos navios na barra de Macau: propositais ou acidentais? As informações são interessantes e marcam um período da nossa história. Alguns afirmavam que os armadores traziam os navios para encalhar por aqui para receber o seguro. Verdade ou mentira… fazem parte da nossa história. 

O patacho Três de Março no pontal do Amargoso  

[*] João Felipe da Trindade

 

Foto de autor não ident.; década 1940, barcaça Mabel, arq. Getulio Teixeira

 “Um dia vai chegar, aqui no Rio Grande do Norte, uma organização estrangeira para fazer uma exploração completa onde foi a Ilha de Manoel Gonçalves, um dos locais mais importantes da História potiguar. Por que o Governo do Estado, a UFRN, a Marinha Brasileira, a Petrobrás, a Prefeitura de Macau, e as companhias salineiras não se juntam e fazem um projeto para investigar tudo sobre a Ilha que o oceano tragou?

As informações sobre os habitantes da Ilha de Manoel Gonçalves e os primeiros povoadores de Macau não são muitas. Aqui, mesmo neste jornal, já trouxemos várias informações a partir de registros paroquiais. Entretanto, com a facilidade de acesso aos jornais mais antigos digitalizados pela Biblioteca Nacional, podemos trazer mais detalhes sobre os personagens que transitaram pelas duas Ilhas. No Diário Novo encontramos uma publicação que trata de um caso que ocorreu com o patacho Três de Março. O espaço aqui não comporta toda a matéria, mas os leitores podem ver todo o material no meu blog, incluindo os depoimentos. Vejamos, pois, parte da publicação.

Os abaixo assinados, sabem por ser público, e alguns terem presenciado, que o patacho – Tres de Março – do qual é capitão Joaquim Manoel da Costa Pereira, fôra encalhado no pontal do Amargoso de propósito para o perderem, por ser aquele lugar impróprio para se encalhar navios para se raspar, tendo por isso tomado uma porção de água pelos altos, e também por o terem arrombado no costado confronte a câmara; e tanto prova ser de propósito, que o mesmo capitão deu ao carpinteiro Manoel de Sousa Monteiro, e ao Calafate Gorgonio Ferreira de Carvalho, por suborno, a quantia de cem mil réis, para assinarem o termo de vistoria, além dos seus ganhos pelo contado, assim mais dera o dito capitão ao capitão Manoel José Fernandes, cem patacões no valor de duzentos mil réis; para julgar as vistorias, protesto e mais papéis a seu favor, como subdelegado de polícia; porque dissera o mesmo Fernandes, que sem receber essa soma nada assinava; dito isso pelo sobredito capitão Pereira, a José Luiz Correia, e ao capitão Silvério Martins de Oliveira, e estes o referiram ao capitão Jacinto João da Ora, a Antonio Alves da Silva, a Ignácio Zacarias de Miranda, a Pedro Alves Ferreira, e que dera mais a Joaquim José de Souza, trinta e dois mil réis, para assinar os mencionados papéis como homem marítimo, além de outras peitas que tem havido que por ora não podem declarar suas quantias. O referido é verdade e juraremos se for preciso. Macáo do Assú, 24 de julho de 1847. Ignácio Zacarias de Miranda, Francisco Gabriel Domingues, Antonio Alves da Silva, Manoel de Miranda Netto, Pedro Alves Ferreira, Francisco José de Mello Guerra, Jacinto João da Ora, João Martins Ferreira. Estava reconhecido.

Alguns desses personagens encontramos nos registros da Igreja: o carpinteiro Manoel de Sousa Monteiro casou na Ilha de Manoel Gonçalves, com Anna Francisca Lessa, em 1829; o capitão Manoel José Fernandes, português, era casado com Anna Martins Ferreira, filha do também português capitão João Martins Ferreira, um dos primeiros povoadores de Macau; Francisca Idalina de Carvalho, filha do Calafate Gorgônio Ferreira de Carvalho e de Anna Joaquina Cordeira, casou com o assinante acima, Ignácio Zacharias de Miranda, filho do Capitão Jacinto João da Ora e Adriana Pereira dos Anjos; Anna Joaquina de Mello Guerra, filha de Francisco José de Mello Guerra e Maria Francisca de Miranda, casou com José Correia de Mello, filho de João Correia de Mello e Josefa Maria da Conceição; Pedro Alves Ferreira, suspeito que era filho do Capitão João Martins Ferreira e Josefa Clara Lessa; João Martins Ferreira, que aparece como assinante, não era o capitão de mesmo nome já citado, pois nessa data  Dona Josefa Clara era viúva, mas pode ser um filho do dito capitão, cujo batismo não foi localizado; o capitão Silvério Martins de Oliveira era casado com Dona Joana Nepomucena, e viveu na Ilha de Manoel Gonçalves, tendo sido o primeiro Presidente da Mesa de Rendas de Macau; sobre o capitão Joaquim Manoel não foi encontrado qualquer referência; Manoel Moreira de Sousa, um filho de Joaquim José de Sousa e Josefa Moreira da Costa, casou em Macau, no ano de 1860, com Joana Serino da Silva, filha de Luis Soares da Costa Catolé e Francisca Maria de Seixas.

Segue depoimento de um prático: José Antonio do Nascimento, prático 1º substituto da barra do Assú, etc. – Atesto que fui a bordo do patacho nacional Três de Março, por me fazer sinal para entrar, e chegando a bordo do mesmo houve o capitão Joaquim Manoel da Costa Pereira de me aceitar para o botar dentro da Barra, o que assim o fiz, e chegando dentro do rio, confronte o pontal do Amargoso, ali fundeei dito patacho a salvamento às 5 horas da tarde do dia 9 de julho, e na maré seguinte de madrugada do outro dia querendo vir com o navio para o ancoradouro, disse-me o mesmo capitão que não vinha por ir encalhar o dito navio na praia para o raspar, e dizendo-lhe eu que aquele lugar aonde ele determinava encalhar o mesmo navio não era próprio, por estar muito perto da barreira do rio, e mesmo por empolar alguns mares, e como o mesmo capitão a nada que lhe disse atendeu, houve eu de saltar para terra, e ele o encalhou sempre aonde tinha determinado no dia 11 do corrente; e foi este o motivo, que teve o navio de se encher de água pelos altos, por ter o mesmo capitão dito, que ele tomava água pelos ditos altos, e que o fundo estava estanque, e isto afirmo por ser a verdade, e jurarei aos santos evangelhos, se preciso for. Povoação de Macáo, 16 de julho de 1847. A rogo de José Antonio do Nascimento, Pedro Álvares Ferreira. Estava reconhecido”.

 [*] João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com), Professor da UFRN, membro do IHGRN e do INRG