Uma viagem sofrida. Era a Macau dos sessenta!

Getúlio Teixeira, inestimável colaborador deste sítio vem reconstruindo com suas memórias uma boa parte da história recente de Macau. Recorda agora das viagens a Natal à época dos mistos — caminhões para passageiros e mercadorias. Tempos difíceis e sem nenhum conforto. O texto com muitos detalhes é agradável e a lembrança da passagem por Taipu, formidável.

A  dura viagem de Natal para Macau de caminhão misto.

 

Um misto. Imagem Google

Até metade da década de sessenta a viagem para Natal era uma verdadeira epopeia.  A estrada, de terra e com bastante trepidação e buracos piorava no inverno [que na região nordestina do Brasil é o período de chuvas] com muitos atoleiros e imensas lagoas. Os caminhões não ofereciam nenhum conforto, os bancos eram estreitos e duros. Os mistos eram caminhões com metade boléia [para passageiros] e metade carroceria [para mercadorias]. Geralmente tinham três bancos grandes, uma carroceria e um bagageiro, alguns exageravam colocando o quarto banco. As passagens na boleia eram mais caras, quase o dobro do preço das cobradas na carroceria. Os proprietários de caminhão que faziam a linha Macau/Natal que marcaram época foram: Zé Lucas, Idalino, Chico Cabral, Zé Cabral, Tomaz Elesbão e Manoel Martins. Cada um com suas características: Zé Lucas, por não cumprir o horário com muita precisão, temperamento explosivo e zelar pouco pelo caminhão. Chico e Zé Cabral zelavam pelo seu veiculo e faziam a viagem com mais rapidez. Tomaz Elesbão tinha como ponto de partida de Natal para Macau a pensão Azul no bairro do Alecrim. Já Manoel Martins, fazia a viagem mais rápida, mas um acidente próximo a João Câmara o tirou da linha.

Foto de autor não ident.; década 1950, um misto no Mercado velho de Macau; foto cedida por Helder Marques

A saída era às seis horas da manhã com previsão de chegada ao meio dia e a grande maioria dos passageiros apanhados em suas casas.  A primeira parada era em Baixa do Meio, não no povoado existente hoje, mas na fazenda de Joaquim de Paiva para um rápido cafezinho e pegar encomenda para os filhos do fazendeiro que estudavam em Natal. A segunda em Jandaíra, onde o lanche de bolo com doce e queijo e a água de quartinha era quase obrigatório para suportar o restante da viagem. Tudo isto acontecia na pensão de dona Izaura, mãe de umas moças bonitas que balançavam os corações dos passageiros e dos motoristas.  A terceira em Baixa Verde, hoje João Câmara, hora do almoço. No mercado publico era servido uma excelente galinha caipira que alguns comiam com arroz ou então comiam um sanduíche com pão francês. O que chamava a atenção é que todas as bancas tinham seus tamboretes amarrados com corrente e os copos americanos marcados com esmalte com as iniciais da proprietária para evitar furtos. Tinha mais uma parada em Taipu para comprar sequilhos e conferir as notas no Posto Fiscal da cidade. O interessante é que o povo de Taipu “pegava ar” quando alguém os chamava de papagaio ou simplesmente pediam o pé, não era preciso dizer uma só palavra, bastava fazer o sinal com o dedo e a garotada jogava pedra no caminhão. Em Ceará Mirim não havia parada, a próxima só em Natal.  Mas, havia outro problema a enfrentar, o caminhão saia distribuindo os passageiros de casa em casa, o que significava no mínimo, mais uma hora para terminar a viagem que durava normalmente de seis a sete horas.  As viagens aconteciam em dias alternados de Macau para Natal com saídas as 6:00 horas da manhã e em dias alternados de Natal para Macau com saída as 12:00 horas do dia. Na realidade só dispúnhamos de no máximo dois caminhões por dia para a viagem. De Getúlio Teixeira para o baú de Macau