Rede de dormir, esteira e pote: das recordações de Maria do Rosário sobre a criação da escola Ressurreição de Macau

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Lembra Maria do Rosario, hoje professora aposentada da UFRN e morando em Natal, que na década de 1970 a chegada do Padre Marcos, como era chamado, trouxe boas novas sociais, econômicas e principalmente educacionais para Macau.  Padre Marcos [o belga Marc A. Adelin Ghis, hoje médico e advogado] lecionando Sociologia no 3º ano do Curso de Magistério do então Ginásio do Padre [CEIMH], incentivou suas alunas a ter o contato com a realidade da cidade por meio de uma pesquisa que depois embasou a criação da Escola Ressurreição. Maria do Rosario lembra que ela e as colegas de classe Ivaneide, Chaguinha, Graça Paiva, Graça Oliveira, Socorro de Orlando e Socorro de Salú, realizaram a pesquisa de casa em casa nos bairros do Porto do Roçado e do Valadão. “Uma experiência marcante”, diz ela. A pesquisa colocou-nos frente a uma realidade que não conhecíamos, apesar de morarmos do lado. O que constatamos foi muita miséria provocada pela ausência do Estado: falta de saúde, educação, habitação e suas consequências como a falta de higiene e a disseminação de doenças contagiosas. “Havia muita mosca”, lembra Maria do Rosário falando da precariedade das casas que não tinham sanitários: era uma latrina no quintal, tudo improvisado. Na maioria das casas era rede, esteira e pote, quando muito, mesinha com tamborete e fogareiro na cozinha.

E. Valle, década 1940, Porto do Roçado, arquivo

Padre Marcos buscava conhecer aquela realidade com mais profundidade. Do resultado, a constatação: muitas crianças fora da escola por vários motivos e entre eles a falta de escolas, o trabalho infantil e a própria ignorância dos pais. Daí o surgimento da idéia da Escola Ressurreição, primeiramente chamada de Escola Irmã Dominique — a religiosa inglesa que faleceu em Macau vítima de meningite — construída em mutirão pelos moradores desses bairros. Maria do Rosário ainda se lembra de Padre Marcos à frente dos trabalhos, de mangas arregaçadas no trabalho braçal como todos os outros e afirma ainda que não só a construção da escola marcou a ação cidadã, ela foi um dos pontos positivos da intervenção. A grande contribuição para o avanço social e econômico foi o trabalho junto às famílias com a orientação e debate dos problemas da comunidade. “Tudo isso contribuiu e ainda hoje continua contribuindo com a evolução econômica e social de Macau e região”, diz ela.

Da equipe do baú de Macau

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