“Infernal calúnia”: aconteceu nos oitocentos em Macau

Vicente Maria da Costa Avelino, uma correspondência (I) 

[*] João Felipe da Trindade

Graças aos jornais antigos, digitalizados pela Biblioteca Nacional e postos à disposição dos internautas, recentemente, podemos conhecer melhor as pessoas que viveram no passado. Neste artigo, transcrevemos uma correspondência do rábula, Vicente Maria da Costa Avelino, meu tio bisavô, pai do Deputado Emygdio Avelino e avô do Senador Georgino Avelino. 

Sr. Redator do Brado Conservador. Baldo dos conhecimentos e estilo necessários para escrever para o público, tive todavia o audacioso arrojo de oferecer-me no sentido de fornecer-lhe para serem estampadas nas colunas do seu bem conceituado jornal as emergências dignas de menção que se fossem dando neste Termo; e tendo-me entretanto animado a uma semelhante ousadia a benignidade e indulgência dos respectivos leitores, tardei a encetar o cumprimento do meu oferecimento, porque alguma coisa que por aqui apareceu e que merecia as honras da publicidade, já tinha sido referida por outros que melhormente explicaram em dois jornais dessa Cidade, apesar de não haver razão que privasse de ser a publicação simultaneamente feita em outro jornal. Partiu assim de mim um pouco de omissão, pelo que lhe impetro desculpa. Hoje vou dar começo ao imerecido encargo que me impus pedindo-lhe, entretanto, vênia para principiar por defender-me e justificar-me de uma infernal calunia de que fui vítima, e que somente a cabeça influenciada pelo espírito das trevas pôde sugerir. Por cartas que tive da cidade de Macau, fui informado que ali andando um Sr. Galdino Lopes de Alencar, morador neste Termo, em procura de obter, perante o meritíssimo Dr. Juiz de Direito Morato, um injurídico recurso na execução que contra aquele move José Conrado de Sousa Nunes, de quem sou procurador, fora por dito Alencar boatado naquela cidade, que ao chegarem aqui uns autos da questão cível entre partes como autores Francisco do Rego Borges e sua mulher, e réus Roberto Barbosa da Cruz, sua mulher, e Anna Barbosa da Cruz, eu na qualidade de procurador destes saí pelas ruas desta Vila com ditos autos gritando que não temia mais perder questão, enquanto estivessem na referida cidade o meritíssimo Sr. Dr. Juiz de Direito Morato, e o Ilmo. Sr. Capitão João Avelino, acrescentando o mesmo Alencar que igualmente dizia eu “que nunca pensei ganhar tal questão”!!! Ao ler as cartas referidas fiquei inteiramente surpreendido a ponto que a noite não pude conciliar o sono, considerando que não é a vez primeira que parte um emissário de satanás de uma horda que aqui existe para desconsiderar-me ante aqueles a quem com justiça tenho quer pública, quer particularmente, feito a apologia de seus atos. Desta maldita horda, um outro emissário com o mesmo fim saiu em 1863, quando o Conselheiro Luiz Gonzaga de Brito Guerra foi Juiz de Direito da Comarca do Assú, a que pertencia este Termo; porém debalde foram os seus uivos, por que esse magistrado, depois de duas correições feitas aqui, pôde felizmente conhecer quais os homens dignos de sua atenção. Busque, antes o Sr. Galdino ocupar-se em coisas mais sérias e que possam aproveitar, do que neste modo de vilmente caluniar-me, embora as insinuações d’alguém, visto como o que o S S. relatou na cidade de Macau, jamais se deu nem aos menos por pensamentos. Este pobre homem felizmente já é bem conhecido aqui, assim como igualmente são bem conhecidos outros do mesmo calibre e jaez que o cercam, e que com ele convivem comumente; e seria preciso que eu estivesse louco, ou que não tivesse reputação a perder, ou perante a opinião pública desconhecesse totalmente o que é honra e dignidade para degradar-me e comprometer ao mesmo tempo a elevada reputação e integro caráter do meritíssimo Sr. Dr. Morato e do Ilmo. Sr. Capitão Avelino, aos quais tributo sincera e respeitosa amizade e subida consideração. O documento junto, e cuja publicação também peço, creio que me há de plenamente justificar, poupando-me assim de recorrer a mais outras provas, as quais felizmente não me faltam. Provoco o caluniador para sair ao prelo, contestando as verdades que aqui se acham exaradas. Até breve. Vicente Maria da Costa Avelino 

A parte que foi junta, e publicada no Brado Conservador, escreveremos sobre ela no próximo artigo neste jornal. Além disso, observamos o que se segue. O Conselheiro Luiz Gonzaga de Brito Guerra foi padrinho do jornalista Pedro Avelino, em 1861; o capitão João Avelino Pereira de Vasconcellos (republicano, primo de Pedro Velho) foi padrinho de Cecília, em 1878. Portanto, tanto o conselheiro, como o capitão, foram compadres de Vicente Avelino. Galdino Lopes de Alencar era filho de Antonio Lopes Viégas Junior e Anna Manoela de Oliveira. Em 1874, o Juiz de Direito Mathias Antonio da Fonseca Morato e sua mulher Anna Henriqueta de Macedo Morato foram padrinhos de Julieta, filha do capitão João Avelino Pereira de Vasconcellos e Maria Olímpia de Vasconcellos.