Um menino vê a feira de Macau. É sábado e é nos sessenta! – primeira parte

O assíduo colaborador deste sítio Getúlio Teixeira, desta vez traz à luz uma das atividades humanas  mais marcantes e que contribuiu em muito para o surgimento das cidades: a feiras. Getúlio fala da feira de Macau com detalhes preciosos e nos dá o mote para postarmos uma série de textos de poetas e escritores sobre a feira em Macau.  

É dia da Feira do Sábado, por Getúlio Teixeira [*]

 

Foto de autor não ident., década 1960, O Mercado velho, ao seu redor a feira de Macau era realizada. Na foto um caminhão misto que trazia gente e mercadorias para a feira

Maria de Rita acorda feliz da vida. É sábado, é dia de feira. Se arruma toda, pega o balde e a leiteira e ruma para feira com o balde de alumínio, areado e reluzente. É dia de encontrar os parentes do Mangue Seco que trazem ovos caipiras, coco verde, queijo de cabra, mel de abelha e notícias, muitas notícias. A feira de Macau tem tudo, quase tudo que não tem noutros lugares,  “loiceiras”  com vasilhas de barro: panelas, quartinhas, alguidares, potes e jarras. Para as crianças, bois de barro para brincar de fazendinha, são lindos. O caminhão do Biôto traz lá do vale do Açu, os produtos de palha: chapéus, bolsas e as esteiras.  Nas bodegas reúnem-se os valentes. São os vaqueiros de couro. A de Romão agora tá cheia deles e as conversas correm soltas entre bicadas de cachaça e tragadas de cigarros de palha. Lá estão, Chico Maxuíba, Chico Ventura, Vital, Manezinho Regina, Anselmo Medeiros e Manoel Jacinto prosando e buscando notícias do gado fujão.  Feira só presta completa. E essa tava! No calçadão, um sujeito magrinho sibito tinha uma mala preta com uma cobra que fumava. Bem, eu não ví, mas ele afirmava que a cobra fumava! E além de fazer a cobra fumar e vendia ungüento que curava de um tudo: reumatismo, espinhela caída, sangue pisado e juntas desconjuntadas.  Na concorrência, do outro lado, Tributino e seu jogo de tampinhas esperando uma vítima. [continua]

[*] Getulio Teixeira é macauense, foi menino em Macau e guardou com carinho e zelo tudo isso que agora nos conta.