Baladas às feiras antigas de Macau

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Baladas às feiras antigas de Macau , de Gilberto Avelino e                  

Ilustrações de Orlando Morgantini                                           

[1] –  Era sábado

O amplo Quadro do Mercado,

onde ocorriam as feiras,

desde cedo estava sob a ternura

do terral,

 

vindo das Imburanas,

cheirando a verde dos velames,

ou trescalando o sumo do amarelo

perrexil.

 

Do alto da torre da Igreja

divisavam-se, lá fora no Lamarão,

as cinzentas silhuetas

dos navios

 

Tibagi, Mogi, Meriti, Francisco Matarazzo

de chaminés em densos fumos,

espalhando-se entre o azul, o vento e o sol.

 

Para os seus porões escorria o sal

Produzido pelas “melhores salinas do universo”.

[Versos

incandescidos do grande Edinor Avelino].

 

Sob o reluzir dos fortes músculos,

os ágeis cabeceiros conduziam

à rampa

a carne-verde

sangrando

para os ranchos dos navios

aportados a nove milhas das areias da costa.

 

Sobre as água dos rio

deslizavam, no rude labor portuário,

as quilhas

da Mabel, Aura e da São Pedro,

e as proas, em rumos serenos

dos rebocadores Ricardo e Macau.

Longamente,

Apitavam as lanchas Patativa, Fely  e Liberdade.

 

Ah, marítimos, conferentes e estivadores:

 

se este rio,

e se este mar,

não mais domais,

 

acesas ainda tremulam as bandeiras

das vossas lutas.

 

 

[2] – O terral continuava a girar

No Quadro do Mercado.

Os lentos passos dos jumentos,

trazendo

a carga

das maduras varas de marmeleiro,

das portas e janelas

das claras imburanas,

das mesas de cumaru amarelo.

 

Da Quixaba, do Maxixe e Mangue Seco,

vinha o carvão

cheirando a catanduba e jurema.

 

O zurzir do chicote

ferindo o ar da manhã,

e fazia fosforescer os olhos

dos possantes burros-mulos,

 

transportadores de batatas,

feijão-verde, melancias,

dulcíssimos melões

e dos escuros jerimuns das vazantes novas.

 

A face do povo

Esplendia:

 

 

havia navios no Lamarão,

e a salina Conde estava “furando”.

 

Era a pujança da fartura.

– A prosperidade alentando

a alegria e o sonho do povo.

 

[3] – A rampa do mercado,

onde fundeavam os botes,

vindos de fora.

 

Chegavam de São Bento do Norte,

de Caiçara,

com os porões abarrotados

de peixes-voadores,

 

que mais tarde iriam

cintilar

sobre as grelhas em brasas,

ao largo dos ventos das Quatro Bocas.

 

Ou chegando de Canguaretama,

ancoravam os botes,

e dos porões

revezava-se o aroma

da manga-rosa, manga-espada

e dos abacaxis amarelos.

 

Espalhavam-se, enfim, sobre o rio

o acre-cheiro de maresia

e o cheiro dos frutos da terra.

 

[4] – Na esquina do Quadro do Mercado,

surgia a figura do bonachão

Manuel Torres [Exímio vendedor

de tecidos].

 

– “Seu Manuel, quero três metros

de chita em estampa encarnada

pra Zefinha.  A menina vai se casar

em dezembro”.

 

– “Pois não, madame. Temos

chita estampada da melhor qualidade”.

 

E o metro deslizava

entre os seus dedos.

 

[5] – Lá dentro do mercado, as bancas.

 

A da carne,

comandada por Zé Bianor,

que tinha o título [em azul e branco]

de balisa dos Remadores,

o mais bonito bloco de carnaval

do chão de sal

da minha infância.

 

Nas “pedras”, as verduras

exportadas pelo irmão

e vizinho Vale do Açu;

e as verduras iluminavam-se

no cheiro-verde dos coentros,

no vermelho dos tomates,

das pimentas malaguetas,

nas longas tranças de alho,

e das brancas e roxas cebolas,

 

inseparáveis companhias

das postas flamejantes das ciobas

e das ovadas curimãs,

pescadas nas águas da Barraca.

 

De cereais as sortidas bancas,

À semelhança do comércio

de cereais,

as bancas eram supridas

por seu Vicente Gomes,

 

que tinha

o domínio da frota de pequenos

barcos,

florando as águas do rio.

 

As bancas distintas do gordo

João de Nana.

 

A das bananas.

Mesmo em silêncio,

sob o carboreto amadurecendo,

elas traziam o sabor

denunciado

na calma do amarelo e do verde.

 

Vizinha, a banca da parafernália

dos flandres: lamparinas, piracas

candeeiros,

apitos  (estridentes),

cestas, flores

e coloridos cata-ventos.

 

E a variedade da borracha aflorava:

dos estilingues [pretos e vermelhos]

às negras sandálias

para os pés dos salineiros.

 

Em sua banca, assomava

o manso perfil de Zé Piloto,

 

com lentidão pesando

a alva goma

para as tapiocas

molhadas em leite de coco.

 

[6] – Ó saudade

Do pão-de-ló

pé-de-moleque

bolo de milho

cuscuz

anguzô

munguzá,

 

tecidos pelas mãos de fada

de Sinhaninha Louceira.

 

[7] – No espaço do Quadro,

as mesas

com os remédios caseiros –

 

boldo

quebra-pedra

hortelã

mastruço

cabacinha

jucá

fedegoso

arnica

catuaba

sidreira

capim-santo.

 

Vindo de dentro da multidão,

ouvia-se

a voz da mulher aflita:

 

– “Minha senhora dos bons remédios,

Eu lhe peço: dê-me dois mil réis

de catuaba. Zeferino, o meu marido,

a noite inteira não me deixou dormir”.

 

– Dos circunstantes, escutavam-se

ruidosas gargalhadas.

 

[8] – Meio-dia.

A distribuir sossegos

Começava o nordeste.

 

O Quadro do Mercado

ainda era denso de gente.

 

O povo comprimia-se

entre as bancas dos jogos,

e fazia a sua fezinha:

 na “36”, no jaburu

ou na roleta.

 

O povo ganhava menos

Ganhava mais o banqueiro.

O dono das bancas sabia

Que “chovia no roçado”.

 

–Havia “furado” a salina Conde.

 

[9] – Inusitada agitação

no meio do povo.

Era tenso o clima.

 

Trovejava a voz

que se indignava:

 

– “Não sou ladrão.

Não fiz trapaça.

O meu jogo é limpo.

Os meus dedais são claros.

Se a bola não for achada,

é porque o seu olho

 é curto”.

 

O povo em cismas,

desconfiado olhava

o famoso vagabundo Tributino.

 

(Aclare-se: a bolinha era escondida

na comprida e suja unha

do seu direito dedo mínimo).

 

[10] – Na bodega de João Estevão,

Os “papudinhos”

Tomavam

as últimas talagadas.

 

Os líricos bêbados

dormiam

E os bêbados valentes

já estavam apascentados.

 

A polícia

ainda rondava

com seus facões rabo de galo.

 

[11] – Amorteciam-se os movimentos

ao evanescer da tarde.

 

A zoada das buzinas dos caminhões

anunciava

a pressa da volta.

 

Pedregosos e poeirentos

os caminhos

do distrito de Pendências,

dos povoados de Bamburral, Alto

do Rodrigues, Tabatinga, Ponciana,

Pedrinhas, Porto do Carão,

Estreito e Canto Grande.

 

Longe – o território do Vale do Açu,

Eram distantes  Carapebas

e Epitácio Pessoa.

(Hoje, Afonso Bezerra e Pedro Avelino) .

 

Retornavam centenas de camponeses,

que emigravam daqueles longos,

para a safra do sal,

buscando

o pão e a paz.

 

O verde olhar de esperança

alongava-se às barras,

que se formavam no mar,

prenunciadoras das chuvas.

 

Acompanhavam a tarde

Cantos de realejos e concertinas.

 

[12] – Da Prefeitura

a sirene

soava fundo.

 

E o Quadro do Mercado

Fechava-se

em solidão de pedra.

 

Gilberto Avelino[1928/2002]

As Marés e a Ilha, p. 39/63 e Diário Náutico – Obras completas – volume II , p. 163/172.

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