Doces pregões de Macau: baganas e baganeiros por Getúlio Teixeira

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 “Baganas e Baganeiros”

Ansiosos. Assim ficava a criançada pela manhã à espera dos vendedores de “bagana”. Quase sempre eles vinham as nove e cada um com seu mote.  Tinha para todos os gostos: o puxa- puxa que era um doce de açúcar branco envolvido na goma; o alfenim, o cavaco chinês e o cacete americano que era um doce de açúcar branco, duro e colorido. E tinha o filhós, o friviado e o cocorote que era um bolinho de ovos crocante. E tinha a raiva, os bolinhos de ovos, a cocada de rapadura, a cocada branca, o pirulito, a rosca de goma e os sonhos. E o gelé, também chamado de quebra-queixo que era um doce com cobertura de pedaços de coco num tabuleiro e por último, o suspiro. E assim, pela manhã, esse exército de vendedores tomava Macau. Uns iam para as escolas, outros, para o comércio e a maioria andava pelas ruas, parando onde o movimento fosse maior, na rampa de Seu Modesto, no tanque da Prefeitura, no Mercado ou na Praça da Conceição, onde todo dia meninos e desocupados jogavam conversa fora. Os pregões, variados. O homem do pirulito em papel seda e que coloria a boca, cantava assim: “Olha o pirulito, enrolado no palito, mamãe eu choro, mamãe eu grito, mamãe me dê dinheiro para comprar um pirulito”. Tri-lim, tri-lim,  tri-lim! Ao longe se ouvia o triângulo anunciando o cavaco chinês. Olha a cocada!Era assim, para uns no grito. Outros nem precisavam anunciar, pois a freguesia era fiel e exclusiva, como os filhós, um bolinho bem fofo mergulhado em calda de açúcar e que dona Rosa de Seu Lino Bico fazia no capricho e que Djalma e Ribinha vendiam tudo, “até a raspa” e que eu até hoje procuro a receita e não encontro.

A rampa de Seu Modesto na década de 1950, frequesia garantida

Na ponta da rua surgia Neguinho de Chita com uma lata de biscoitos Aymoré cheia dos bolinhos e cocadas de Quinha Ferreira. Vendia tudo.  Bezilda de Zé de Joia fazia o friviado, um bolinho de ovos, crocante e recheado de coco, que Chico de tanto vendê-los ficou Chico Friviado. Mas as cocadas de rapadura de Lurdes de João Jota  ainda me enche a boca d’água.   E era assim tudo natural, tudo gostoso, para nós crianças tudo especial e sem nenhum medo de ser feliz. E para os que faziam e vendiam um dinheirinho a mais no mês. Esses eram ambulantes e corriam a cidade toda, mas também tinha aqueles com ponto fixo. E quem não se lembra do cachorro quente do Januário com carne de conserva em pão francês. Bem, mais aí já é outra história, dessas de plagiar o Ataulfo: “nós éramos felizes e não sabíamos”.

De Getúlio Teixeira que guardou  as doces memórias macauenses.

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