Presença de Mario de Andrade em Macau – primeira parte

0

 

Das pequenas pirâmides para as grandes. Este processo perdurou até a mecanização no começo da década de 1960

Macau, 18 de janeiro, 16 horas – Viemos em pouco mais de sete horas de Natal até aqui, automóvel, bom, estrada assimzinha, paisagem horrorosa de medonha. Foi bom mesmo chegar nas salinas bonitas porque atravessar assim no solão sincero, léguas[1] e  léguas de caatinga[2], um naco do sertão e mais caatinga em plena seca, palavra: quebra a alma da gente, vista de cinza malvada! Em Epitácio Pessoa[3] foi difícil resistir a um desses assombros sentimentais que diz-que arrancam lágrimas. Miséria semostradeira de vilareco, nem ninguém mais quase, morto de todo nas 13 horas do dia, onde os corajosos que moram ali estão comprando a cruzado, a 500 réis [4] a lata d’água, vinda de léguas longe. Mário de Andrade, Turista Aprendiz, p. 286, in Macauísmos de Benito Barros, p. 134.[5]

[1] Léguas – antigo sistema de medida para itinerários terrestres que variava de 4.000 e 7.000 metros lineares. No Brasil, correspondia mais frequentemente a 6.600 metros. Com a introdução do Sistema Métrico, entrou em desuso.

[2] Caatinga – vegetação própria do semiárido brasileiro, constituída de árvores de pequeno porte. A palavra é do tupi: caa= árvore e tinga= branca. No período da seca, as árvores perdem todas as folhas e a paisagem é cinza, quase branca. É um bioma exclusivamente brasileiro.

[3] Epitácio Pessoa é hoje a cidade de Pedro Avelino.

[4] Réis – moeda brasileira vigente até o ano de 1942 quando foi substituído pelo cruzeiro. Vale lembrar que o réis é o plural de real, o nome da moeda.

[5]O escritor Mário de Andrade foi um dos expoentes da Semana da Arte Moderna em 1922 em São Paulo, movimento cultural que propunha novas idéias, renovação da linguagem e liberdade criadora, dentre outras propostas no cenário cultural do Brasil.  Mario de Andrade visitou Macau  no ano de 1928 e  o potiguar Câmara Cascudo foi o seu grande amigo e  mantiveram profícua correspondência. Era uma viagem etnográfica e o escritor queria conhecer o Brasil. Já havia realizado em 1927 uma viagem à região Norte.