Presença de Mario de Andrade em Macau – terceira parte

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E. Valle, decada 1940, Usina Pereira Carneiro no final do istmo. Arquivo Francisco Gama

Macau, 18 de janeiro, 16 horas – … A usina Pereira Carneiro estava em atividade e a visitei. Aí se beneficia o sal pra exportação. O calor, apesar do vento, é pavoroso nela. Os operários trabalham 8 horas diárias, das 7 às 11 e da 13 às 17. Assim mesmo sofrem por demais. A própria Companhia reconhece isso e agora anda instalando eletricidade nas salinas dela pro trabalhador poder trocar a noite pelo dia, evitando o calorão do Sol. Na usina já muitas feitas se trabalha de-noite. O ganho diário na usina é de 5 mil réis [*]pelas oito horas de trabalho, o que se não chega a ser propriamente um crime é porque custa bem a gente distinguir o seja crime nesta sociedade em que vivemos. Outra acusação grave a fazer aos proprietários dessa Companhia é não se utilizarem senão duma porcentagem absolutamente mínima [talvez não passe de 10 por cento] das terras salineiras que a elas estão aforadas. Isso impecilha o desenvolvimento da indústria diminuindo imaginem de quanto a produção e o emprego de capitais no Estado! Temos que ler de novo o que falei atrás sobre a dificuldade da gente alcançar um conceito de crime na civilização americana de agora.   [continua] Mário de Andrade, Turista Aprendiz, p. 286, in Macauísmos de Benito Barros, p. 134.

[*] Para comparação, o preço médio por tonelada para transporte de mercadorias nas ferrovias brasileiras era de r$400 réis. No ano seguinte – 1929 – houve a quebra do capitalismo e a situação piorou ainda mais para os trabalhadores macauenses.

O escritor Mário de Andrade foi um dos expoentes da Semana da Arte Moderna em 1922 em São Paulo, movimento cultural que propunha novas idéias, renovação da linguagem e liberdade criadora, dentre outras propostas no cenário cultural do Brasil.  Mario de Andrade visitou Macau  no ano de 1928 e  o potiguar Câmara Cascudo foi o seu grande amigo e  mantiveram profícua correspondência. Era uma viagem etnográfica e o escritor queria conhecer o Brasil. Já havia realizado em 1927 uma viagem à região Norte.