Presença de Mario de Andrade em Macau – quarta parte [final]

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Macau, 18 de janeiro, 16 horas – … Mas que boniteza de salinas!… Graças a Deus aliás que elas já estão perdendo a sensação metafórica de Holanda que davam pros sabidos. Os moinhos [*] já estão sendo substituídos por motores elétricos, menos visíveis na paisagem que pra logo ficará tão-somente sal e Sol, uma geometria em luz. Nos baldes a água crespa, nos cristalizadores a larga quadra alvinha, a reta da estrada, quilómetros! no meio e as pirâmides brancas, branquíssimas quase todas túmulos de ninguém, 5, 6, às vezes mais metros. É u’a maravilha. Inda faz pouco, depois da janta, voltei lá na luz forte do quarto crescente. Que fresca batia no vento resmungador! Mas inda era cedo, 20 horas e por isso os fantasmas descansavam no chão, sob as mortalhas, antes de irem por esse mundo, assombrando tudo. [final] Mário de Andrade, Turista Aprendiz, p. 286, in Macauísmos de Benito Barros, p. 134.

[*] Conforme registra o Professor Geraldo de Margela Fernandes na sua obra: Sal Economia em Questão, o moinho foi o primeiro instrumento técnico que os salineiros utilizaram para a captação da água do mar.

O escritor Mário de Andrade foi um dos expoentes da Semana da Arte Moderna em 1922 em São Paulo, movimento cultural que propunha novas idéias, renovação da linguagem e liberdade criadora, dentre outras propostas no cenário cultural do Brasil.  Mario de Andrade visitou Macau  no ano de 1928 e  o potiguar Câmara Cascudo foi o seu grande amigo e  mantiveram profícua correspondência. Era uma viagem etnográfica e o escritor queria conhecer o Brasil. Já havia realizado em 1927 uma viagem à região Norte.