Da guerra, do carnaval, de Babalú, do Bloco do Boi e de outras reminiscências macauenses na pena brilhante de José Saddock de Albuquerque.

1943. Estávamos em plena II Guerra Mundial.  Lá vai o trem da vida subindo a montanha, descendo o desfiladeiro, atravessando o deserto, florestas, cidades, vilas, pontes, ruas, becos, seguindo os trilhos do destino; passando como se fosse um filme, despejando soldados pelos campos de batalha.  Os aviões sobrevoavam vomitando bombas pela Terra; menos na minha cidade, que não se deu a esse confronto fratricida. Em Macau estávamos ligados nas ondas do rádio e do telex; o amor nas cartas e os fios nos postes.

E. Valle, década 1950, caminhão misto no Quadro do Mercado.

O trem da vida fazia suas paradas nas calçadas para ouvir as histórias mal assombradas e apreciar o luar de agosto que vinha bolando no vento. Quando muito, se dizia que o homem um dia pisaria na lua; mas que nada! Era coisa da cabeça de seu Veríssimo, um caixeiro-viajante que vivia pelas bandas de Natal. A lua era dos namorados e de São Jorge, que matava um dragão por dia, isso sim! Mais certo é o dizer do velho Chico Marrafa: “Todo mundo quer ser bom, mas o mercado forme fechado”.  E ainda diziam que os ingleses nunca atrasavam, pois mais pontual do que os mistos de Zé Lucas, Aberlado e Dioclécio, não havia. Estavam sempre “num pé e noutro”, no horário da saída. Quem quisesse aprontasse o seu matulão e fizesse o favor de não chegar atrasado, pois depois da manivela não se via nem o azul.  A guerra que desse a brucuta, pois aqui era carnaval. Na cidade, todos estavam embriagados. O cheiro do lança-perfume volateava no ar. Alguns – vencidos pelo cansaço e pelo álcool – dormiam nas calçadas; outros, invencíveis, passavam cantando a marchinha de Chiquinha Gonzaga:

Ó abre alas

Que eu quero passar

Ó abre alas

Que eu quero passar

Eu sou da Lira

Não posso negar

Eu sou da Lira

Não posso negar

Ó abre alas

Que eu quero passar

Ó abre alas

Que eu quero passar

Rosa de Ouro

É que vai ganhar

Rosa de Ouro

É que vai ganhar.

Fotografo não identif., década 1960, Professor Ivo Martins no Imperadores do Samba, no carnaval de Macau, arquivo: Herbert Martins. post Cyber-Macau 2012

Finalmente, chegavam à praça principal da cidade – centro da festa pagã  – circulando sempre no mesmo sentido, os Blocos Remadores, Lenhadores e Sabiá, rivalizando-se pelo 1º lugar, seguidos das Escolas de Samba Azes do Ritmo e Imperadores do Samba. Mais atrás, vinham Os Índios; O Homem de Quatro Braços e Duas Cabeças; Os Enfermeiros – encenados por duas pessoas vestidas de enfermeiro e um terceiro que, deitado em um leito de hospital, fazia às vezes de um moribundo, tomando generosas doses de cachaça – finalmente, Os Irmãos Metralha Ltda.; o Bloco de Colô; As Almas; O Passo da Ema – encenado por alguém vestido de ema, acompanhado pelos Mestres Zé Raimundo e Virgílio Dantas. Aquele, exímio artífice da carpintaria naval; este, extraordinário saxofonista, com seu velho e inseparável saxofone, e um pequeno macaquinho de fabricação artesanal, com os dentes à mostra, preso num chapéu de couro.  Tudo isso associado àqueles que preferiam participar da folia como espectadores e zombeteiros, embora se sujeitassem ao mela-mela e à “maizena na cara”.  Do lado oposto da praça e vizinho a Igreja Matriz, o Bar Rochedo, point da sociedade burguesa, estava de portas abertas, numa demonstração de que o carnaval é a festa mais democrática do mundo, onde pobres e ricos riem-se da máscara um do outro.  Num desses carnavais, um enorme touro, conhecido por Babalú, soltou-se e pôs-se a correr pelas ruas, espantando foliões e destruindo alegorias, numa tragédia que terminou em risos e descontração; além de ter propiciado a origem do famoso Bloco do Boi, cujos representantes eram pessoas de reputação ilibada, como: Chico Paraíba; Edinho de Zé Capa, Osnir; Paulo de Hermes; João do Mangue; Nenê Cabral; Sávio Solino; Saddock – o próprio –; Regina Barros, Cristina, Juraneide e outros tantos. Foi o mais original e dionisíaco dos blocos. Formado por foliões vindos de todas as partes  –independente do credo, cor ou preferência sexual –o Bloco do Boi exibia uma alegoria de um boi, tal bumba-meu-boi, que, na maioria das vezes, era conduzido por um passista às quedas; e, quando muito, substituído por outro, não menos bêbado, porém, mais atrevido. – Que saudade; não da guerra, que não era nem projeto de gala ainda, mas das fuleiragens!

De Jose Saddock de Albuquerque para o baú de Macau