Serestas e seresteiros

 

A Coluna da Praça da Conceição: ponto de reunião dos seresteiros de Macau

Em noites de lua cheia e céu estrelado era comum os rapazes se reunirem para homenagear a mulher amada ou simplesmente aquela desejada, com canções entoadas na madrugada, expressando o amor. Eram as serestas de Macau.  Juntavam-se no Café do Povo, Buraco do Tatu, Bar do Armando, Bar do Manoel Borja e outros menos cotados. E depois das nove, com a Praça da Conceição quase morta, começava  a  seresta na coluna:  uma garrafa de cachaça ou de  rum e alguma fruta para o tira gosto. E os seresteiros iam chegando aos poucos, silenciosamente. Os do violão: Raimundo de Gamboa, Idinho, Aranha, Paulo de Policarpo, Nazareno Vieira e Newton Ramalho. Os da voz: Ivan Amaral, Zelito Pelinca, Luiz Filho, Chicão, Zelito Mariano. E todos, os da cachaça ou do rum. Violão na afinação, cachaça na cabeça e timidez vencida era só traçar o roteiro esperar o apagar das luzes para saírem em serenata. No alto falante da igreja, o Apartamento Azul na voz de Carlos Galhardo fechava a praça. Logo depois o motor da prefeitura desligava.

                 Saíam pela Rua da Frente, lugar de moça bonita e depois, se a polícia não chegasse, passavam para outras ruas até as altas horas da madrugada. As músicas eram dos cantores clássicos da época, Silvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Chico Alves, Jamelão e outros. A escolha do repertório dependia da mensagem que o rapaz queria enviar para a pessoa amada ou simplesmente uma declaração de amor para inicio de namoro.

                Em meados dos sessenta houve mudança nas serestas. Uma turma mais jovem, com Chico Antonio, Caeté, Toinho Biquíni, Ronaldo Teixeira, Raimundo Gomes, Boró, Aranha e Francilúzio, mudaram o repertório para a Jovem Guarda, e então, agora era Roberto Carlos, Jerry Adriane, Antonio Marcos, Marcio Greick e Fernando Mendes, mas o encontro continuava na velha coluna da Praça da Conceição. Depois, na falta de cantores, se viravam com as radiolas portáteis e um Long-play, os discões de muitas músicas e assim declaravam seu amor para a bela adormecida.

                Algumas serestas eram bem-vindas, janelas eram abertas e até bebidas eram oferecidas aos seresteiros, mas nem todas as serestas acabavam bem, pois dependia do humor do pai da moça e assim discos foram perdidos nas fugas e violões quebrados por desrespeitar o silencio.

                Das minhas lembranças, a do Galego Ivan Amaral que depois de percorrer a cidade cantando, parou na casa de um guarda de transito, pai de moça charmosa. Acontece que na hora da música deu um branco no Galego e a única musica que ele lembrou foi uma marchinha de carnaval que dizia assim: “Vem cá seu Guarda. Bota pra fora este moço…” Vocês imaginam o que aconteceu. Ivan ficou um tempão sem passar no beco de Alfredo Teixeira, local de residência do guarda. Isso tudo acontecia numa cidade onde  se andava tranquilo pelas ruas, sem medo de assaltos e agressões gratuitas. Esta cidade existiu e era a minha Macau.

 De Getúlio Teixeira [getulioteixa50@yahoo.com.br] para o baú de Macau