A Peleja do Pau Torto, Literatura de Cordel de João Vicente Guimarães Barbalho

Autor: João Vicente Guimarães Barbalho

Obra: A Peleja do Pau Torto –  De João de Zé de Bela  com João de Calais – Literatura de Cordel – Projeto Moinho Velho – nº 3, Imperial Casa Editora da Casqueira – 9 de setembro de 2012.

Como prefácio, o autor pediu que Benito Barros [1957/2010] falasse. E ele falou:  

Toda vez que ocorre essa data do aniversário da cidade, em que Macau passa de vila a cidade, vem à lembrança a minha infância aqui em Macau. Meu pai tinha uma loja ali no início do Beco das Quatro Bocas, onde eu, quando não estava no Duque, passava boa parte do meu tempo nessa loja. E ali, por aquela esquina, onde hoje é a Farmácia de Dona Sonia, passavam todos os trabalhadores que iam para a maré. Os barcaceiros, o pessoal que trabalhava na estiva, nos rebocadores, os pescadores, gente valente! Bem ali na esquina, de um lado tinha o Sindicato dos Marinheiros., Moços e Marítimos e do outro lado o Sindicato dos Estivadores. E eu me acostumei a ver e a amar aquele povo valente que brigava por seus direitos, que não baixava a cabeça, que não se vendia nem se rendia. Como também o Beco tinha uma série de quartinhos onde residiam as antigas prostitutas de Macau, por quem eu tenho o maior apreço.  Eram mulheres guerreiras que vendiam o corpo por necessidade, mas não vendiam o coração nem a mente. Nunca se venderam por completo, vendiam apenas o corpo; e tem histórias fantásticas nesse sentido. E é relembrando essa minha infância, que me dá muita tristeza o que eu vejo hoje em Macau. Uma cidade onde boa parte do povo se acovarda diante de um punhado de dinheiro. Uma cidade cuja maior parte foi transformada numa ilha de venalidade, onde o que voga hoje é a esmola de um emprego, uma esmola em dinheiro, uma esmola de cachaça… e é muito triste ver isso numa cidade que foi de homens e mulheres guerreiros, lutadores, hoje ver boa parte do povo amofinado diante do poder econômico. Isso é muito triste. Hoje só me traz tristeza, quando recordo esse passado heroico de Macau.

[Depoimento no Programa Sinal Aberto, TV Litoral, Macau-RN, em setembro de 2006].

E cantou João de Zé Bela:

 

O voto dá voz ao mudo

Dá visão a quem é cego

Dá saúde ao doente

Tira do tirano o ego

E contra a madeira dura

Afina a ponta do prego.

 

E respondeu João de Calais:

 

O meu voto só entrego

A quem pode e quer mudar

Eu não confio em gente

Sem história exemplar

Cardeiro não dá escora

Nem sombra pra refrescar