Agulha de palombar

Das memórias dos amigos macauenses

 

Ela estava cravada na sua memória, mais lembranças do mal que do bem. À sombra do tamarindo velho, remendava velas e a agulha de palombar era tão comum na sua vida que nem fazia conta.  Fez agora neste momento que a bola veio com força nem se sabe de onde e bateu na ponta do telhado e ficou pipocando na varandinha.  Teve um sobressalto. Levantou-se foi até lá com a agulha de palombar na mão e apanhou a bola de futebol.  Junto à cerca três meninos olhavam ansiosos para ele. Quarenta anos revolveram na sua cabeça. Ele e os amigos junto ao muro da Matarazzo, a maré de correnteza devolvendo a agua para o mar e eles ali temerosos implorando para que Seu Aristides devolvesse a bola.   – Nunca mais vai cair aí, prometemos! Afirmavam quase chorando.  Seu Aristides não estava num dia bom, a maré de sizígia quebrara o mastro do Macau no Lamarão. Era prejuízo. Afundou a agulha de palombar  e fisss….fisss a bola foi morrendo devagarzinho.  E ele ali quarenta anos depois no papel de Seu Aristides. Recordou de tudo e uma lágrima quis pular fora do olho. Os meninos continuavam paralisados junto à cerca.  Devolveu a bola e pediu com educação: — Vão jogar ali perto da maré! Os meninos abriram sorriso se desculpando e sumiram.

De Claudio Guerra para o baú de Macau